AS COMPENSAÇÕES PSICOLÓGICAS DO ANALISTA

Barbara Low

The International Journal of Psycho-analysis

Vol 16- Parte 1 – Janeiro de 1935

 

Muito se escreveu sobre os requisitos do analista em seu trabalho, sobre os problemas que o assediam ligados à transferência e à contra-transferência e sobre o especial perigo a que está sujeito, tal como um aumento de sentimentos de onipotência e à diminuição de padrões do superego, entre outros. Tanta atenção não tem sido dada ao problema da “compensação” psicológica às inevitáveis privações experimentadas pelo analista. É verdade que hoje se admite a necessidade de uma análise, tão completa quanto possível, para o vir a ser do analista, mas esse reconhecimento nos leva longe o suficiente? O analista deve supostamente ser capaz de reconhecer e de lidar satisfatoriamente com a influência de seu próprio inconsciente, e de manter o domínio de sua própria psique ao longo da análise. Na verdade, sabemos que isto é uma imagem bastante fantasiosa, salvo em caso de naturezas excepcionais. Sabemos que a situação analítica pode ser usada pelo analista, assim como faz o paciente, na satisfação de desejos inconscientes, especialmente aqueles perte...ncentes às fases pré-genital, e genital-infantil (já que freqüentemente os últimos se encontram apenas parcialmente trabalhados pelo analista em sua própria análise); ou, pode ser convertida no que o Dr. Edward Glover chama de um “processo de observação”, que satisfaz o desejo infantil de olhar objetos sexuais proibidos: ou o analista pode sucumbir à tentação de se tomar por aquele que consola e salva – isso para mencionar apenas alguns usos que podem ser dados ao processo. Contudo, todas essas satisfações devem ser negadas para que a análise não se destine à ruína, além disso, a situação é dificultada pelo forte contraste entre seus participantes.

Renunciar a satisfações da criança amada e onipotente, do pai reverenciado e onisciente, aos prazeres do exibicionismo, do sadismo, do masoquismo, não é uma realização fácil: nem é mais simples nos rendermos a uma incerteza intelectual, permanecer com o julgamento em suspenso e abandonar o desejo do conforto de soluções rápidas. Ainda mais difícil, talvez, é o abandono dos modelos do superego em favor de uma visão mais livre e de um desenvolvimento completo do ego, ao passo que o paciente pode por sua vez se dizer “brindado” (se é que podemos usar essa palavra) com todos estes privilégios.

Uma vez que nunca pode haver uma pessoa “totalmente analisada”, que o id e sua força poderosa nunca podem ser analisados à exaustão e que, como demonstrou Freud, o inconsciente não pode tolerar mais que um certo nível de privação sem compensação, parece que  postulamos uma situação fictícia, a menos que haja alguma compensação.

Três privações, tão inevitáveis quanto custosas, podem ser tomadas como exemplo: a saber, a inibição do prazer narcisista, especialmente no nível pré-genital (emoções de impaciência, ressentimento, vingança), a inibição da certeza dogmática na esfera intelectual, e a modificação do superego - este último implicando na maior privação de todas. Em resumo, o analista está submetido à necessidade de traduzir e interpretar o material do paciente sem reagir emocionalmente a isso. Mas aqui nos confrontamos com duas dificuldades: falhando em sua tarefa ele anularia a análise; por outro lado, somente através de sua própria atividade emocional pode chegar a uma interpretação e tradução correta daquele material. O trabalho, prático e teórico dos grandes expoentes da psicanálise serve para mostrar isso.

Permitir-se uma resposta emocional livre para com seu próprio material é coisa bem diversa de reagir a emoções do paciente. A primeira alternativa é bastante essencial ao trabalho analítico, a outra o destrói. Em Paraíso Perdido, como sabemos, Milton faz o espírito de Deus instilar três gotas de essência divina nos olhos do Adão banido, e nele... “to the centre and core of sigth pierced with his eyes”[1] , metáfora da emoção, em sua potência de dar o poder da visão interpretativa. Como chegar então a isso?

A cegueira da não-visão corresponde a material incorporado e “morto” até que a emoção insufle vida no interior dos ossos dessecados, e então “vemos” como viu Adão. O processo essencial parece ser uma forma de introjeção e projeção, direcionada a partir do material apresentado pelo paciente, situação paralela ao relacionamento do artista com o mundo externo sobre o qual trabalha. Este intercâmbio é a via do artista (incluímos aí também o cientista genuíno) e sem isso a “compensação” parece inatingível.  Em um texto chamado “A Natureza da Ação Terapêutica da Psicanálise” (Jornal Internacional de Psicanálise, Vol. XV p. 127), Mr. James Strachey trabalha a questão da interpretação, especialmente com o tipo nomeado por ele de “interpretação modificadora”, sobre o qual escreve: “A interpretação modificadora é o fator operacional definitivo na ação terapêutica da psicanálise”.

Acho que aqui Mr. Strachey lida com o problema já referido por mim. Concebo que “interpretação modificadora” é produto do insight do analista e nasce de um contato direto e livre com suas próprias emoções.  Isto, como sugeri, dá a possibilidade de visão ao analista, e capacita o paciente, que está em contato com ele, a se tornar mais livre em sua própria vida emocional, e a partir disso mudar. Estamos todos conscientes de que a interpretação - quando, como, e em que intensidade deve ser dada - é um dos problemas vitais para o analista bem como para o paciente, e põe à prova as relações do analista com seus próprios impulsos inconscientes. Uma coisa é certa, a interpretação do analista, no momento certo, e direcionada verdadeiramente ao seu objetivo, pode ser da mais alta e dinâmica influência sobre o inconsciente do paciente, causando de um lado um “fluxo” de energia dirigido a um novo funcionamento, e de outro, uma resistência agressiva autoprotetora.

Pelo simples fato de evocar a energia ativa e agressiva do id no paciente, a energia do id do analista pode ser igualmente evocada nesse momento e direcionada ao material (do paciente) que é agora uma parte dele mesmo, o que libera novas e ricas fantasias, acompanhadas de uma prazerosa sensação de dinamismo.  Como resultado deve haver uma atitude mais favorável por parte do analista, com uma diminuição da hostilidade inconsciente.

O que pode então vir a prevenir a hostilidade inconsciente e a vingança pelas privações citadas? As privações podem se tornar ganhos positivos? Dr. Sachs se referiu a um aspecto do trabalho do analista que o coloca em uma posição de artista criativo, a saber, a participação em um grande número de outras vidas. Esta entrada para poucos de nós poderia ser de fato franqueada, fora do processo analítico, exceto na mesma medida em que podemos obtê-la através de formas de criação artística, arte, música, e assim por diante: é na direção dessa “participação na intimidade” que devemos procurar a compensação.

Mas precisamos nos certificar de que esta “participação” seja verdadeira e constitua um processo criador. Se nossa chamada participação for de espectadores passivos, em maior ou menor grau, e nosso prazer largamente baseado na gratificação da curiosidade infantil e em desejos de identificação, o prazer então obtido não necessariamente demonstrará uma verdadeira força dinâmica: mais ainda, a gratificação pode facilmente mascarar hostilidade, que poderá emergir mais facilmente neste ponto de observação do viver dos seres humanos. “Ah! coisa amarga que é olhar através da janela da satisfação de outro homem”, escreveu um dos nossos poetas.

Se “olhar para” puder ser mudado para “vivenciar” a experiência que nós compartilhamos, as inibições já mencionadas se transformariam em positivas: a gratificação narcisista renunciada é trocada pelo prazer em usufruir vida nova, os padrões modificados do superego substituídos por impulsos do ego mais fáceis de lidar; e a inibição da convicção dogmática por uma curiosidade legítima e mais arrojada. O resultado de tais mudanças habilita o analista a abrir duas frentes: pode usar bem mais (e mais livremente) seu pensamento consciente, e pode trazer à luz mais de seu inconsciente.

O que chamei de vivenciar ao invés de “olhar para” pode ser clareado se pensarmos na descrição do poeta Wordsworth sobre a essência do processo da criação poética. Ela deveria ser “emoção recordada (i.e. reexperimentadas) na tranqüilidade”. E novamente, penso no conselho de Hamlet para o grupo de atores: “Não sejam tão mansos... pois mesmo na torrente, tempestade, eu diria até nos torvelinhos da paixão, é preciso conceber e exprimir sobriedade”. Deste modo podemos realmente criar a situação desejada, ou seja, a habilidade na tradução do material do paciente, o ajuste às suas exigências inconscientes, sem submergir. Wordsworth e Hamlet demandam emoção e paixão, assim como o procedimento analítico, desde de que sejam sujeitas ao “manejo” analítico, que penso serem paralelas à “tranqüilidade” e à “sobriedade”. Exemplos ilustrando essa “emoção na tranqüilidade” nos são conhecidos, e eu selecionaria a própria técnica de Freud em primeiro lugar. Em sua exposição mesma, em seu estilo (ou seja, no veículo e na expressão de sua psique) encontramos uma profunda emoção e uma total liberdade em seu uso: sua atitude para com esse material, expresso em palavras e idéias, poderia quase ser chamada de jubilosa, e é impressionante na leitura desse trabalho a identidade com a atitude do artista, que, durante o processo de interpretação se enriquece a si mesmo, muda uma situação negativa (o resultado de um abismo entre o material incorporado e sua fluidez emocional) para uma positiva, e gratifica um sentimento de poder altamente sublimado. Com respeito ao estilo de Freud, gregos e troianos sentem do mesmo modo os efeitos libertários e iluminadores, certamente do mesmo quilate dos alcançados na obra de grandes artistas – um Michellangelo, um Shaskespeare ou um Göethe. Seu escrito parece estar em contato livre com sua própria fantasia, com a vibração da paixão que Hamlet pedia a seus atores, ainda que sob o controle da sobriedade e da tranqüilidade.

De outro modo e em grau diverso, encontramos a mesma condição na obra de outros analistas (Ferenczi e Dr James Glover, para mencionar dois que não se encontram mais entre nós). A liberdade para a fantasia, por pouco que concordemos com suas idéias básicas, certamente deram força e poder aos últimos escritos do Dr Groddeck, e devo dizer, eficiência ao seu manejo de seres humanos.

O prazer evidente (advindo da satisfação emocional) que tais pessoas referiram obter de sua liberdade repercute nos que a rodeiam, e é o que quero dizer quando falo acerca da reação do paciente à partilha real do analista nas experiências em que está presente. Devemos descobrir, portanto, o que está envolvido nessa partilha.

A capacidade, de um lado, em tomar material externo, moldá-lo e recriá-lo, e a partir daí criar novas combinações (qualidade essencial de qualquer artista, de qualquer esfera), e, por outro lado, o poder de tomar este material, que passou por nós, e devolver combinado por fusão com nossa própria experiência individual deve estar apoiar em pulsões de vida orais e anais, conforme mostrado em inúmeras pesquisas sobre a atividade criativa. A produção e a assimilação deste material é algo muito próximo do ato de tomar e recombinar alimentos comuns, e do prazer e da atividade que acompanham o processo.

Portanto, se o analista pode “comer sua própria comida” lado a lado com o paciente, ele tem acesso a um prazer livre (em sua forma sublimada), e isso é o que chamo de “reviver sua própria seqüência interior”. Do mesmo modo que uma refeição partilhada entre duas pessoas é um evento completamente diferente de duas refeições individuais, uma nova criação se desdobra fora dessa vivência fusionada e resulta em novos desenvolvimentos para o paciente. Recordo-me aqui de uma paciente minha, poetisa e escritora de certa excelência, que costumava dizer quando era capaz de liberar livremente suas fantasias: “é como se estivesse comendo a comida mais deliciosa, sinto-me rica e satisfeita por dentro”.

O aspecto sublimado desses processos é um tópico que nos interessa, e é em torno da questão da sublimação do analista que muita coisa gira. Este problema parece nos acompanhar. Até que ponto temos uma sublimação “verdadeira”, e se verdadeira, em que extensão pode ser levada? É por isso que trouxe a questão da “compensação”, pelo que pareceria estarmos muito freqüentemente estabelecendo um grau inatingível de sublimação, ou que demandamos uma “sublimação” apenas mascarada enquanto tal, na medida em que se presta a regular nosso contato livre com a fantasia.

No relato de seus casos, Freud com freqüência indica a própria “vivência” do material apresentado. Por exemplo, ao lidar numa fase do caso de “Miss Elisabeth” e sua cegueira com o sentido de certos sintomas, muito óbvios, relata o quanto se lembrava de sua própria e surpreendente cegueira em uma certa situação, revelando uma peculiar discrepância entre seu conhecimento inconsciente e a observação consciente, e vai adiante para explicar e fornecer mais interpretação à sua própria condição psíquica na ocasião.

É muito claro que a ampliação do contato de Freud com seu material inconsciente lhe trouxe maior liberdade: de fato, ele escreve que sentiu um sentimento de triunfo por agora possuir o conhecimento desejado para lidar com o inconsciente do paciente, e na sessão seguinte faz um grande progresso com o material. Isto, que é apenas uma das inúmeras que podem ser encontradas nos relatos de caso de Freud, me serve como exemplo do reviver do analista de sua própria seqüência interior, lado a lado com o reviver similar do paciente, processo auxiliado por efeitos dinâmicos sobre ambos, cuja importância foi enfatizada pelo próprio Freud e por muitos outros autores. Aqui nos encontramos com o que é, provavelmente, uma situação humana fundamental – a necessidade e o efeito dinâmico desse relacionamento primitivo – o que Edward Glover descreveu como o bebê do paciente fazendo rapport com o bebê do analista, com o resultado de que o bebê-paciente se sente livre de uma grande parcela de sua ansiedade, e uma vez que aquele que é superior (o analista) ficou em uma situação de perigo e dor, mas saiu dela, ele também pode fazê-lo. Tal rapport deve operar em toda análise, já que sem isso poderia faltar uma sensação de que a análise está em movimento, e a análise deixaria de ser um processo vivo para se tornar castradora para o paciente e para o analista.

Uma das vantagens da terapia ativa (na última interpretação de Ferenczi desta fase) pode estar na produção maior da percepção de dinamismo na análise, embora situações em que a energia dinâmica não opera sejam provavelmente uma questão de influência do inconsciente e não uma questão de técnica.

Todavia, a habilidade de “forçar” a fantasia no paciente e tolerar a grande “atividade” que se segue, pode dar livre expressão a impulsos instintivos, que torna possível uma síntese egóica positiva e maior, desde que não se trate de dar asas ao mais profundo sadismo do paciente ou à reação do próprio analista a isso.

Não é uma questão de reagir às fantasias do paciente, trata-se mais de um banquete de amor, e sabemos que os que se alimentam juntos, irmãos de sangue a partir de então, podem saciar demandas legítimas no nível oral inconsciente, e em um nível sexual consciente e sublimado. Tomar o material introjetado e colocá-lo sob a lei, a ordem e a unidade, é a forma pela qual o inconsciente urge ser satisfeito: a reprojeção em novas formas satisfaz desejos sublimados. Tal trabalho, do artista e do cientista, deve também estar no trabalho do analista. Não podemos, conforme disse Freud, tomar o papel de profeta, salvador, ou consolador diante do paciente, mas será que não podemos, ou não devemos nos tornar amantes do material projetado pelo paciente e fazer disso nosso “objeto bom” introjetado? Esse amor é o que viabiliza o que chamei de “partilhar”, se for forte o suficiente para liberar as fantasias de prazer do analista. Aqui podemos nos auxiliar pela análise de crianças. O analista de crianças pode nos mostrar o caminho pelo qual o analista pode mais e mais liberar seu mundo de fantasia, até o ponto em que pode haver um fluxo mais livre entre ele e o paciente. O analista de crianças deve forçosamente estar profunda e instintivamente em contato com o mundo da fantasia da criança para ser bem sucedido: não pode esconjurar a fantasia para o quadro das palavras do mesmo modo que um analista de adultos pode fazê-lo.

Não tenho mais tempo para avançar nessas ligeiras indicações que dei. Talvez o melhor resumo do perigo que cerca o analista que tenta manter a ficção de imunidade contra a emoção no processo analítico esteja dado nas palavras de Freud com referência à tragédia de Leonardo: “O artista em certa ocasião tomou para assisti-lo em seu serviço o investigador: Aquele que antes servia agora cresceu e derrubou o seu senhor... ele nem amava, nem odiava... investigava ao invés de amar”. É contra essa situação que a antecipação de Freud pela boca de Hamlet proclama: “em mim você quer tocar; pretende conhecer demais meus registros; pensa poder dedilhar o coração do meu mistério. Acha-se capaz de me fazer, da nota mais baixa ao topo da escala. Há muita música, uma voz excelente, neste pequeno instrumento, e você é incapaz de fazê-lo tocar”.

O sucesso do analista, para si e para o paciente, pode ser mais bem descrito se nos voltamos novamente a Freud e seu retrato do artista. O artista, nos diz, (podemos substituir aqui artista por analista) em contato com o mundo externo (aqui substituímos por “paciente”) obtém seu material, molda e ilumina-o pela fusão com seu próprio inconsciente, e o apresenta de novo, sob outra forma, numa forma aceitável para as exigências da realidade e para a inconsciência do mundo (o paciente). Com essa revelação consegue uma maneira de libertar tanto seu parceiro quanto a si mesmo.

 

 

Tradução de Carlos Martinez



[1] - “Três gotas que da vida à fonte apara/ De Adão aplica aos olhos tal colírio/ Que da vida mental na sede lhe entra.”

(Paraíso Perdido, Canto XI)