“R” - A Resposta Total do Analista

para com as Necessidades de seu Paciente

 

Por Margaret Little

Jornal Internacional de Psicanálise, 32, 1956

 

 

I - Introdução

 

Este texto contém um certo número de temas que requerem cada um, um texto exclusivo. Para considerá-los em conjunto e resumidamente é preciso condensá-los, e nisso arrisco-me a não ser compreendida, em razão de uma inevitável distorção e de uma perda da clareza; ao mesmo tempo produzi um texto longo e pesado. Espero fazer maior justiça com cada tema em um outro momento, quando puder desenvolvê-los separadamente.

As idéias aqui destacadas seguem a mesma linha do que está expresso em meu breve artigo, “Contra-Transferência e a Responsabilidade do Paciente”. Foram colhidas em minha análise e na análise de meus pacientes. Vou ilustrá-las com algum material da análise de uma paciente em particular.

A maioria dos pacientes que analisei vêm de uma categoria conhecida como “psicopatias” e “caracteropatias”, alguns deles foram considerados pessoas seriamente doentes e perturbadas, com alto grau de ansiedade psicológica. Embora muito do que tenho a dizer pareça aplicável a pacientes deste tipo, não penso que se limite a eles, mas pode também se aplicar a pacientes tanto neuróticos quanto psicóticos.

 

II - O  Símbolo “R”

 

Em meu artigo anterior tentei encontrar uma definição concordante de “contra-transferência”, e disse que “o termo é utilizado para significar um ou todos os tópicos a seguir:

a) - A atitude inconsciente do analista para com o paciente.

b) - Elementos reprimidos, até então não analisados no próprio analista, que o ligam ao paciente da mesma maneira que o paciente “transfere” para o analista afetos, etc, referentes a seus pais, ou aos objetos de sua infância; ou seja, o analista estima o paciente (de modo temporário e variável) como estima seus próprios pais.

c) - Algumas atitudes específicas ou mecanismos pelos quais o analista encontra as transferências do paciente.

d) – A totalidade das atitudes e comportamentos do analista frente a seu paciente. Isto inclui todas as outras, bem com as atitudes conscientes.“

Humpty Dumpty disse: “Quando uso uma palavra, ela significa apenas o que escolhi que significasse - nem mais nem menos”, e quando Alice questionou seu poder de fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes, replicou “a questão é o que é ser Mestre – e só isso”. Nossa dificuldade aqui é fazer uma palavra não significar tantas coisas diferentes, diversamente do múltiplo uso feito pelas pessoas.

Além de haver confusão entre esses vários significados, o termo “contra-transferência” também foi investido de um valor emocional que dificulta a discussão. É obviamente impossível evita-los conjuntamente, mas, para reduzi-los ao mínimo, introduzo um símbolo, R, para indicar o que digo, definindo R como “a resposta total do analista às necessidades de seu paciente, quaisquer que sejam as necessidades, e qualquer que seja a resposta.”

R inclui tudo o que é consciente e tudo o que é inconsciente e o que é inconsciente consiste no que é reprimido (seja normal ou patologicamente), e muito além de ter sido alguma vez consciente. Em outras palavras, inclui tanto elementos do ego do analista, quanto de seu superego e de seu id. Corresponde à quarta definição colocada anteriormente.

Usarei a palavra “contra-transferência” somente para denotar a segunda destas definições, e veremos que “contra-transferência” é apenas parte do que estou chamando de R.

 

 

III – Definição de “Resposta Total”: “Necessidades”

 

A) - “Resposta Total

No uso da expressão “resposta total” escolhi deliberadamente uma palavra abrangente, e quero deixar clara minha posição quanto a isso. A expressão inclui tudo o que um analista diz, faz, pensa, imagina, ou sente, através da análise, em relação ao seu paciente.

Todo paciente que vem ao analista tem certamente suas necessidades, e para cada um deles o analista responde de modo variado. A resposta é inevitável e valiosa; é uma parte indispensável da análise e lhe proporciona uma contribuição expressiva com sua força efetiva. É resultado do balanço, da interação e da fusão entre o amor e do ódio do analista por seu paciente.

O que um analista diz e faz na análise de seus pacientes freqüentemente se divide entre sua “interpretação” e seu “comportamento”, com a crença que apenas a “interpretação” é de algum uso concreto do paciente. Tal separação é falsa, porque dar uma interpretação é na verdade uma parte do “comportamento”, como são suas formas, seu rítmo, etc. Não deixa de se tornar uma questão, quanto ao comportamento, quando o analista aperta as mãos do paciente, ou não aperta as mãos, as condições que fornece (para o paciente e para si mesmo), seu silêncio, sua escuta, sua reação ou a ausência dela. Representa a emergência de seus sentimentos, sejam conscientes ou inconscientes. Mesmo ciente disso, há sempre muito mais que é inconsciente, cujos apelos exercem impulsos mais dinâmicos do que os exercidos pelos que são conscientes.

Limitações podem ser impostas para se obter o máximo de interpretações e o mínimo de outros tipos de comportamento, mas grandes limitações levam à rigidez e ao estereótipo. Limitações não podem ser absolutas, ou padronizadas. Isso não seria desejável mesmo se fosse possível, seria apenas implicar de saída a negação de um princípio básico, o do valor da particularidade de cada pessoa (tanto para si como para a sociedade), independente de estarem referidas a qualquer dos dois individualmente, o analista ou o paciente.

B) - “Necessidades

“Necessidades” neste contexto é outra palavra abrangente, e igualmente uma escolha deliberada. A necessidade fundamental em todos os casos é obviamente adquirir “insight” com crescente apreciação e apreensão da realidade. Mas neste caminho, muitos destes pacientes severamente doentes têm outras necessidades que devem ser encontradas; sem determina-las torna-se impossível uma análise. A situação mais óbvia é a hospitalização, mas há outras em que o analista tem de intervir; como acordos na assistência pelo médico da família, controle de sedativos, contatos com parentes e amigos, controle do “acting out” (freqüentemente necessários à segurança do paciente), tudo pode entrar na ordem da necessidade, além da rotina comum às condições da análise, como acordos quanto ao pagamento, horários, e obviamente, quanto à escolha inicial do paciente.

Sem isso, em muitos casos, nem mesma a compreensão necessária e a interpretação cuidadosa e correta possibilitará um percurso para uma análise. Estes elementos possibilitam o processo, mesmo que para ambos, paciente e analista, sejam percebidos como interferência e demora; somente o decorrer da análise mostrará a pertinência deles ou não.

IV - Responsabilidade; compromisso; sentimentos; limites; “até o fim”

A) - A Responsabilidade do Analista

Responsabilidade em análise não é uma coisa simples; o analista não tem apenas a responsabilidade com o seu paciente. Tem também a responsabilidade para consigo mesmo, para com a psicanálise, e para com a comunidade. Há muitas responsabilidades que seus pacientes ou a sociedade gostariam de colocar nele, mas há também limites para isso.

Por sua própria resposta às necessidades de seu paciente o analista é 100% responsável. Tenho pensado cuidadosamente nesta afirmação, se deveria ser recolocada ou de algum modo modificada, mas penso que não devo fazê-lo. As palavras, idéias, sentimentos, ações, e reações do analista, suas decisões, seus sonhos, suas associações, pertencem apenas a ele, que deve arcar com a responsabilidade mesmo quando originados de processos inconscientes. Nenhuma responsabilidade sobre isso poderia ser dividida com mais alguém, nem de algum modo delegadas. Isto me parece ser uma verdade invariável, para toda análise.

O que de fato varia está no percentual de 100% de responsabilidade, quero dizer, a extensão possível em que a responsabilidade pode ser atribuída ou compartilhada, para quem e com quem. A decisão quanto ao momento de delegar isso, e como, ainda é responsabilidade do analista.

Há, grosseiramente, três classes de pacientes, definidas a partir da doença, com variações; qualquer paciente nos diferentes estágios de análise pode passar de um para outro estágio. Seriam:

a.1) – Pacientes francamente psicóticos, cuja responsabilidade tem que ser delegada a outras pessoas - médicos, assistentes de enfermagem, pais, etc.  - por razões puramente práticas. Risco de suicídio, perigo para outras pessoas, irresponsabilidade generalizada e comportamento violento são as razões mais comuns.

Nestes casos a tensão acomete amplamente o meio em que o paciente vive e pode ser dissipada temporariamente pelo analista.

a.2) - Pacientes simplesmente neuróticos, cuja responsabilidade lhes pode ser delegada. Isto depende da presença de um ego intacto e de um bom senso de realidade, por ser o senso de responsabilidade uma das mais altas funções do ego, e estreitamente relacionado à estabilidade.

Estes casos são menos cansativos para um analista, já que o paciente carrega sua própria tensão em grande medida. Mas é importante que tanto analista quanto paciente reconheçam que há divisão ou atribuição de responsabilidades, e que a responsabilidade última ao longo da análise é do analista.

A certa altura, em toda análise, chega um tempo em que o paciente precisa carregar suas próprias tensões, e exercer a responsabilidade por si mesmo, mas precisa compreender o que está acontecendo, e porque. De qualquer modo, é próprio às condições em que trabalhamos, que algo como a divisão e a responsabilização sejam inevitáveis.

a.3) - Entre estes dois grupos há o grande grupo dos “distúrbios de caráter”, “psicopatias” e “psicóticos borderline”, para os quais qualquer tipo de responsabilização é extremamente difícil e freqüentemente impossível. Pode-se realizar temporariamente, mas em extensão limitada.

Nesta classe de pacientes a responsabilidade do terapeuta pode ser vista mais claramente, e o “manejo” do caso é da maior importância. É o tipo de caso que possivelmente coloca a maior e mais contínua tensão no analista, por ser tão difícil atribuir responsabilidades. Pacientes em cada um dos outros grupos implicam nisso em algumas fases do tratamento, especialmente nas fases de transição - e.g. quando um psicótico deixa o hospital psiquiátrico, ou quando um neurótico está em um estado de regressão temporária.

Há limites para a responsabilidade do analista: nenhum ser humano pode carregar mais que uma certa quantidade dela. Vale a penar lembrar que ninguém é obrigado a fazer um trabalho analítico a menos que o escolha, e nenhum analista está obrigado a cuidar de pacientes seriamente perturbados. Tem o direito de se recusar a se comprometer com uma análise cujas condições considera insatisfatórias ou arriscadas, ou de se recusar a continuar se as condições são mudadas por alguma razão depois da análise ter começado.

Duas outras coisas evidentes são freqüentemente esquecidas, mesmo pelo analista. Nenhum analista precisa alcançar o impossível e  não tem que ter 100% de habilidade para compreender ou interpretar: mesmo no final de uma longa análise muitas coisas serão deixadas sem compreensão por ambos - paciente e analista.

Todo paciente necessita, em algum ponto de sua análise, se tornar ciente da responsabilidade que o analista carrega (inclua isso a responsabilidade por sua vida ou por suas ações (acting out), ou não); e é surpreendente quão poucos pacientes têm alguma idéia de que o analista assume uma responsabilidade real com relação a isso. Vários escritores, de Freud e Ferenczi progressivamente, têm descrito o caminho pelo qual o paciente usa o analista como um ego: Phyllis Greenacre escreve: “o analista funciona como uma função extra, ou como um conjunto de funções que são emprestadas ao analisando para seu uso e benefício posteriores, em caráter provisório”. Penso que isto é tão verdadeiro na função/responsabilidade do analista como nenhuma outra. A estabilidade na análise depende disto, e, para que a capacidade do paciente de assumir suas próprias responsabilidades vigore, é necessário haver uma pessoa com responsabilidade, digna de confiança, com quem se identificar.

B) - Compromisso

Assumir a responsabilidade envolve em primeiro lugar uma avaliação acurada do paciente, observando tanto níveis superficiais quanto mais profundos. Isto não significa, é claro, um reconhecimento imediato do conteúdo de níveis mais profundos, mas de sua existência, e da extensão em que contribuem para o sucesso ou o fracasso de sua vida e relacionamentos, isto é, em que extensão e de que modo está perturbado. Este conhecimento tem que ser gradualmente aumentado, ampliado, e aprofundado até que paciente seja tão completamente conhecido quanto possível. Significa, de fato, um reconhecimento do paciente como singular, como uma pessoa; as realidades de sua infância e sua vida presente precisam ser compreendidas, tanto quanto suas fantasias. O analista tanto entra no mundo interior do paciente e dele passa a fazer parte, quanto permanece fora e separado disso.

Isto envolve estar disposto a comprometer-se 100% das vezes, o que somente é possível na medida em que o analista é capaz de ser uma pessoa por si mesmo, isto é, de ter um perfil, ou limites, e ser capaz de tolerar a perda desse perfil ou a fusão; isto é, sua capacidade de fazer identificações e se manter não envolvido.

O compromisso de si mesmo pelo analista é bastante óbvio em alguns aspectos; ele se encarrega de dar ao paciente sua atenção, seu interesse, sua energia em tempos fixos ou além do combinado, dentro dos limites normais da capacidade humana. Mantém o compromisso com suas palavras, suas decisões, seus erros e falhas, bem como com seus sucessos.

Há ocasionalmente outros tipos de compromisso inevitáveis; tive de dar testemunho, sob juramento, num tribunal da lei, na inquirição de um paciente. Felizmente não acontece sempre, mas compromissos deste tipo acontecem em casos em que o acting-out coloca o paciente em conflito com o mundo exterior, que então reage contrariamente. Aqui se demonstram claramente os 100% do grau de compromisso.

É difícil expressar o que quero dizer com esses 100% de comprometimento, além dessas coisas mais óbvias, bem como tornar isso compreensível. A maioria dos analistas não percebe estas coisas como limites de seu comprometimento, mas não encontrei qualquer definição completa ou uma descrição disso.

Freud nos fala da atenção flutuante, e talvez seja exatamente o que digo quanto ao tipo ou nível de atenção envolvida, ao dizer que o analista coloca tanto o que é consciente quanto o que é inconsciente de si mesmo a serviço de seu paciente.

Isto deve ser feito de um modo viável para o paciente, de modo que lhe faça sentido, que possa se utilizar disso. A forma pode ser verbal ou não-verbal. A capacidade do paciente de simbolizar e de deduzir pensamentos o determina em grande medida, e depende dos acontecimentos no início do desenvolvimento. Diferentes pacientes podem precisar de diferentes formas, e para cada um uma forma que é utilizável e significativa em um momento pode não ser em outro.

A forma final deve ser, obviamente, verbal e interpretativa, mas um objeto (maçã, biscoito, tapete, etc.), como Mme Sechehaye mostrou, pode ter um efeito como aquele da interpretação, e pode ser relacionado com interpretações verbais mais tarde, quando a capacidade de utilizar símbolos estiver suficientemente desenvolvida.

Por fim, a implicação disso é que o analista vai com o paciente tão longe no interior de sua doença quanto lhe for possível. Pode ser que em alguns períodos, momentos ou mesmo frações de segundos, nada exista no espaço psíquico para o analista além do paciente, e nada dele separado do paciente. Ele permite que o paciente entre em seu próprio mundo interior e dele se torne parte. Todo seu psiquismo se torna exposto a se assujeitar a uma invasão repentina e sem aviso, freqüentemente em larga escala e por muito tempo. O paciente se apossa dele, suas emoções são exploradas; tem que ser capaz de fazer todos os tipos de identificação com o seu paciente, aceitando uma fusão, que freqüentemente envolve tomar para si algo realmente louco; e ao mesmo tempo tem que ser capaz de permanecer inteiro e separado.

A menos que o analista esteja disposto a se comprometer a si mesmo, às claras, ficará quase sempre impossível para um paciente se comprometer com sua análise. Comprometer-se significa dar algo, e renunciar a alguns direitos. Pessoas em situação de grande privação não podem dar nada, sem ganhar algo antes; elas nem mesmo acreditam ter algum direito. Deve-se lhes esclarecer que algo é dado, que está sendo dado de boa vontade, e que faz parte da análise isso ser dado e, que a partir disso, têm o direito de tê-lo.

O que é dado não está além do que é necessário ao analista dar, mas não é uma situação onde uma “pessoa com alguma coisa a disposiçãoencontra a “pessoa com necessidades”. É essencial que o analista saiba que o que está “disponível” e é dado é limitado; é da natureza de um “sinal” ou de uma “substituição”[1], e não se destina a dar realmente conta das necessidades do paciente (embora quanto mais apropriado a atende-las, melhor), assim como as mais profundas necessidades não podem ser realmente encontradas exceto aprimorando o insight e agindo na realidade.

C) – Sentimento

Este comprometimento, qualquer que seja sua ordem, envolve sentimento, o analista tem de estar sensível, sobre seu pacientes, com seu paciente, e algumas vezes por seu paciente, no sentido de prover sentimentos que o paciente é incapaz de encontrar em si mesmo, e na ausência dos quais nenhuma mudança real pode ocorrer. Como no caso em que, por temer mudanças, o paciente controla a situação mantendo seus sentimentos fora do sentir, isto é, inconscientes.

O sentimento real do analista por seus pacientes, seu desejo de ajudar (deve haver algum sentimento, quer chamemos isso de simpatia, compaixão, ou interesse, para propor um início e continuidade da análise), precisa ser expresso clara e explicitamente quando oportuno e realmente sentido, e quando puder aparecer de modo espontâneo e sincero.

Pacientes muito perturbados, e às vezes mesmo os menos perturbados, não podem fazer deduções acuradas. Deixar os sentimentos do analista por conta da dedução, ou mesmo falar sobre eles, não resulta em nada significativo; é necessária uma expressão direta e real de como e no momento em que ocorrem (mas não em um momento qualquer). Em Casa dos Espíritos, Dostoievsky diz, "a impressão causada pela realidade é sempre mais forte que aquela feita nas descrições", o que considero ser particularmente verdadeiro neste caso. Sentimentos fingidos mais que inúteis podem ser piores, mas a restrição absoluta a sentimentos intensos é igualmente inútil - é desumana, e dá a falsa idéia de que a análise visa capacitar o paciente a ter uma expressão de seus próprios sentimentos. Conduz à impressão de que a expressão dos sentimentos é algo permitido somente para crianças e pacientes, mas proibido no mundo “normal” ou adulto.

Do ponto de vista do analista uma restrição absoluta de seus sentimentos é irreal, e pode gerar-lhe uma grande exigência. Deve haver limitações que ele mesmo impõe, o que não é o mesmo que uma restrição absoluta: não há dificuldade com sentimentos menos intensos, que podem encontrar suas expressões mais facilmente, por caminhos indiretos.

São expressões de sentimentos conscientes, pré-determinados deliberadamente, ou de impulsos conscientes. Uma “reação” é algo diferente. Existem situações em que a reação de um tipo primitivo não apenas é boa, como ajuda positivamente. Quando um paciente zangado balança seu punho na direção de meu rosto, e me encolho, a reação é ela mesma um lembrete da realidade, lembra-lhe rapidamente tanto o fato de que poderia me machucar e o fato de que não sou exatamente a pessoa que deseja ferir. Outras reações, não apenas corporais, têm igualmente um efeito similar e não podem ser desprezadas; às vezes alcançam o ego por caminhos fechados à interpretação, independentemente do fator temporal de sua velocidade.

Objetou-se que a expressão de sentimentos pelo analista pode ser excessivamente gratificante, ou pode ser um fardo para o paciente. Em minhas experiências, nada precisa ser assim, embora seja possível ser assim. Se proporcionadas as necessidades de identificação e separação, se o paciente está empenhado, tais expressões de sentimentos tendem a acontecer na hora certa. Se não é assim, qualquer outro modo de tratamento da situação também fomenta dificuldades.

Reações, ou expressões dos sentimentos do analista, contudo, não substituem a interpretação, mas podem em certas circunstâncias agir como uma. Abrem o caminho para a interpretação por tornar o paciente acessível, isto é, estabelecem contato em uma área nova, até então fora de alcance. Interpretações têm de ser dadas mais tarde, quando puderem ser usadas de fato. De outra maneira, a única mudança seria esta abertura, que se fecha novamente ao não se seguir da interpretação, com aumento na resistência.

Carregar o sentimento de alguém nesta extensão pode ser bastante pesado. Sentir ódio real do paciente por semanas, ou ficar de repente furioso, é muito doloroso, uma vez que a isso se segue a culpa; e pouca diferença faz se os sentimentos vêm de projeções do paciente ou são objetivos e desencadeados por comportamentos reais do paciente. Danos reais podem ser provocados se permanecem inconscientes, mas há poucos danos quando se tornam conscientes. Seu reconhecimento traz por si mesmo algum alívio, e a possibilidade de expressões tanto diretas quanto indiretas. Sonhos são freqüentemente úteis em encontrar amores rejeitados ou o ódio inconsciente por um paciente.

A culpa ou a autoconsciência sobre estes sentimentos por um paciente pode conduzir tanto a uma estereotipia quanto a uma falsa separação entre "o analista" e o resto de sua pessoa (em outras palavras, divide onde não é apropriado), com resultados que podem ser perigosos para pacientes muito doentes.

A variedade de sentimentos que pode ser provocada é enorme. Referi-me à fúria e ao ódio, mas a isso se somam coisas como transtorno ou confusão, incompreensão, culpa, medo (de ser atacado, de que o paciente se suicide, de falhar, etc.). Amor, excitação, e prazer podem ser igualmente difíceis; quando um paciente finalmente aceita uma interpretação, ou faz progresso real; mesmo quando um humor violentamente odioso muda para sentimentos mais amigáveis, um sinal de alívio pode ajudá-lo a tornar-se consciente de uma mudança que por outro lado poderia negar e não reconhecer, e pode também ajudá-lo a conhecer algo do que foi provocado em outra pessoa - algo que de outra maneira seria incapaz de acreditar.

Como a responsabilidade e o compromisso, os sentimentos por um paciente têm limites. As exigências de outros pacientes e da própria vida fazem suas próprias imposições, o material muda, os sentimentos mudam. A menos que um analista esteja "apaixonado" por seu paciente não há riscos de que seus sentimentos se fixem, ou de se sentir compelido a ir adiante e expressá-los, que é o temor que as pessoas sentem quando algum sentimento é expresso de alguma maneira.

O benefício para o paciente também se depara com limites. Cedo ou tarde o paciente verifica que ninguém pode amar ou odiar por ele, que deve sentir por sua própria conta, e se responsabilizar por isso. Antes que venha este tempo há a presença de uma pessoa com sentimento, há a oportunidade de fazer identificações, tanto pela projeção de sua própria insensibilidade e do encontro desta projeção, quanto pela introjeção dos sentimentos do analista.

D) - Limites; “Ir até o fim”.

Mostrei que a responsabilidade, o compromisso, e os sentimentos têm limites; irão variar com os diferentes tipos de pacientes tratados e com o analista individualmente. São de grande importância uma vez que proporcionam pontos de separação.

Quando se chega a um limite e o paciente torna-se consciente, disto e da impossibilidade de ir além, mesmo quando suas necessidades e exigências vão mais longe, torna-se consciente também de sua separação. Se sua habilidade para suportar separações é muito pequena, cada limite logo aparecerá, a exigência de seu ego será excessiva, e algum tipo de reação (por exemplo, alguma violência no estilo de um 'acting out', ou o desenvolvimento de uma doença física) poderá se seguir, a menos que se lide cuidadosamente com a situação. Limites que ficam dentro da capacidade do ego, cuja lógica e realidade cabem em sua compreensão, proporcionam pontos de crescimento e espaços em que o ego pode ser ampliado.

Com os limites contrastam os 100% de responsabilidade, o compromisso, e a aceitação do sentimento e da reação. Correspondem ao “sem limites” das idéias e das palavras permitidas ao paciente e ajudam a fazer sua realidade.

Alguns pacientes são tão doentes que seu tratamento não pode acontecer sem grande dispêndio de energia, tanto intensivo quanto extensivo; nestes casos a dificuldade sempre é fazer do esforço do paciente um esforço que não se detém, e, somente se perceber que o analista vai “até o fim”, pode achar oportuno faze-lo por sua vez.

V – Manifestação do analista enquanto pessoa

Cada elemento, a responsabilidade, o comprometimento, os sentimentos, etc, carrega consigo uma manifestação ou afirmação do próprio analista como pessoa, um ser humano vivo com quem é possível ter um contato e um relacionamento.

A idéia de tela impessoal ou espelho serviu, e ainda serve, a um propósito muito valioso de isolar a transferência em pacientes neuróticos. Mas pode ser usado defensivamente, até mesmo de um modo quase concreto, não-simbólico por vezes, tanto pelo paciente quanto pelo analista.

Algum contato mais direto com o analista é necessário para pacientes sofrendo de ansiedades psicóticas, e em particular em caso de doença psicótica real. O simbolismo e o pensamento dedutivo são necessários quando o contato direto é diminuído, e ambos funcionam mal ou estão ausentes em alguns pacientes. Seu desenvolvimento é prejudicado quando realidades da infância do paciente coincidiram com fantasias necessárias na perlaboração. Projeções neste caso tornam-se não apenas inúteis, mas impossíveis.

Todo paciente testa seu analista constantemente para descobrir pontos fracos e limitações. Deve descobrir se a mesma coisa é verdadeira no analista como nele mesmo - i.e. que a relação da força do ego com as tensões instintuais é inadequada. Se puder provar que seu analista não pode suportar ansiedade, loucura, ou mesmo o desamparo no paciente de si mesmo - terá certeza de que o que sente deve ser verdadeiro; na manifestação de tal tensão o mundo cairá aos pedaços, qualquer que seja a forma que isso tome; e de novo, já que ele e o seu analista são os mesmos, são provavelmente indivisíveis e uma coisa só.

Por isso, é de importância vital descobrir que o analista pode não somente suportar a tensão e sua manifestação, mas também que pode suportar ter limites em faze-lo. A diferença entre ansiedade e pânico, e a diferença entre a ansiedade do seu paciente e sua própria ansiedade e medo, pode ser avaliada se o analista pode cair, reerguer-se, e seguir adiante novamente. Nesta situação o reconhecimento da contra-transferência, no sentido literal da palavra (segunda definição), tem a maior importância. Pode ser necessário seu reconhecimento tanto pelo analista quanto pelo paciente, e sua recusa pelo analista, onde está presente e o paciente o percebeu, pode levar a sérios efeitos. (A simples admissão disso é suficiente; detalhes são assuntos próprios do analista, mas a presença da contra-transferência afetando o analista é assunto do paciente e ele tem o direito de saber).

               Cada analista certamente tem suas próprias dificuldades em deixar as coisas acontecerem, especialmente consigo mesmo. Isto se relaciona com o problema do controle como um todo, mas pode ser essencial para alguns pacientes que vejam seus analistas reagirem ou agirem impulsivamente. Lembrando a origem biológica das reações ao estímulo e do impulso instintivo, e que nem toda atividade do ego é imediatamente consciente, considero um erro colocar ambos como intrinsecamente indesejáveis ou perigosos mesmo em um trabalho analítico. Em alguns casos, quando uma análise está fluindo rapidamente, e as idéias seguem-se umas às outras em rápida sucessão, ou quando os mecanismos estão mudando, é impossível ter sempre um passo à frente do paciente, ou pensar sempre antes da fala e da ação. Um encontra o outro e tem algo a dizer. Se o contato inconsciente com o paciente é bom, o que é dito deste modo freqüentemente se revela correto. É a contra-transferência inconsciente o que é mais propício a trazer a resposta errada, e a única salvaguarda contra isto é a auto-análise contínua do analista.

               O efeito no ego do reconhecimento consciente da existência de elementos como estes em uma pessoa real, conhecida (diferente de uma máquina ou de um “tipo”), é o que possibilita o acesso a interpretações transferenciais, e a outros reconhecimentos da realidade. Encontrei muitas vezes tal reconhecimento como um ponto de virada em uma análise. Por essa via um ser humano é descoberto, tomado, comido imaginariamente, digerido e absorvido, e erigido dentro do ego (não magicamente introjetado); alguém que pode assumir uma responsabilidade, um compromisso consigo mesmo, sentir e expressar sentimentos espontaneamente, que pode suportar tensões, limitações, fracassos, ou satisfação e sucesso.

               O paciente torna-se capaz de se comprometer com sua análise; sua ansiedade paranóica é aliviada de uma forma direta, e interpretações transferenciais podem vir a lhe significar algo. Começa a ser capaz de encontrar a realidade e de lidar com pessoas reais ao invés de seus fantasmas. O desenvolvimento de relacionamentos torna-se uma possibilidade, com o necessário para suportar tanto a fusão quanto a separação, ou o risco de provocar sentimentos em outra pessoa e vice e versa.

VI- Material Clínico

O material que estou usando para ilustrar meus pontos de vista consiste em meia dúzia de episódios de uma análise. Significa comprimir num espaço de 10 minutos coisas que se deram em 10 anos.  A imagem que dai resulta só pode ser distorcida e de compreensão limitada.

Na verdade essa condensação de 10 anos é bastante apropriada para minha paciente. Frieda desorientou-se no tempo durante o tratamento e usou o tempo de modo particular, não imediatamente compreensível. Tal desorientação foi seu principal traço regressivo. Não apresentou nenhuma perturbação regressiva, e muito pouca regressão nas sessões.

Chegou ao tratamento por roubar coisas, embora não se referisse a isso no primeiro ano de tratamento. Ao invés disso, falou de dificuldades com o marido e os filhos. Tinha também um rash cutâneo, que é uma vermelhidão passageira na pele, afetando principalmente a face, a vulva e as faces internas das coxas.

Além do marido e de mim apenas outra pessoa sabia dos roubos. Tratava-se de uma assistente social psiquiátrica que estava por perto numa ocasião em que foi surpreendida por um detetive. A assistente fez com que as coisas roubadas fossem restituídas ao dono e que Frieda procurasse tratamento.

A infância de Frieda na Alemanha foi traumática. Seus pais eram judeus. O pai era um homem brilhante, porém vaidoso, egoísta e megalomaníaco. Sua crença mágica de que nenhuma doença poderia atingi-lo levou-o a não acompanhar a família quando toda ela emigrou, e consequentemente à morte em um campo de concentração. Sua mãe ainda é viva, possessiva ao extremo, mesquinha, melindrosa e desleal. Brigou com seus próprios pais por 30 anos e então com seu marido, terminando o casamento. Insulta-o diante dos filhos e refere-se ao período do casamento em sua totalidade como muito infeliz. Gosta de discutir sobre os motivos de reconciliações entre casais.

Os pais, ambos exploravam seus filhos. Frieda foi responsável pelos menores, era esperado que servisse a  seu pai, era forçada a fazer coisas que supostamente já deveria ter feito, de livre e expontânea vontade, quando deixada sozinha, como forma de declarar-lhes um amor imenso. Em resposta à coação da mãe nesse sentido, o pai puniria qualquer revolta ou omissão batendo nela com um chicote de equitação, especialmente quando se negava a pedir desculpas por desobedecer à mãe. A mãe a castigava batendo nela, arrastando-a escadas acima, quando era trancada num armário de vassouras, na escuridão. Em torno dos quatro anos foi “curada” da masturbação com banhos frios de 15 minutos por vez.

A mãe nunca esqueceu seus delitos, mesmo quando punidos, reparados e ostensivamente perdoados: foram mantidos em reserva e explodiram 20 anos depois, em sua intensidade original. Ela ainda tenta explorar Frieda emocionalmente.

Este retrato dos pais surgiu aos poucos. De início descrevia-os como adoráveis, comuns, e foi uma surpresa para Frieda descobrir esse retrato oculto.

Era a filha mais velha e desapontou os pais que queriam um menino cujo nome seria Friedl, como o pai. Foi amamentada por poucos dias e o leite secou após uma brincadeira em que o pai dizia que a filha se parecia mais com um amigo do que com ele.

Na escola era infeliz, constantemente isolada, confusa, sonhava acordada.  Após deixar a escola teve diversas aventuras sexuais, casou-se finalmente com um russo e veio para a Inglaterra.

Seus amigos a consideravam capaz, talentosa, culta, generosa e calorosa. Ela é tudo isso, mas sob esta fachada era uma criança profundamente infeliz, impetuosa e impaciente, que não suportava nem a tensão nem a separação. Seus filhos eram extensões de seu corpo, como havia sido da mãe, e eram inconscientemente explorados como ela havia sido.

O roubo apareceu gradualmente como parte de um amplo padrão de comportamento impulsivo, que a levou a diversos tipos de perigo real: as ações impulsivas ocorriam em qualquer situação de stress.

Os primeiros sete anos de sua análise se caracterizaram por uma falha de minha parte em tornar-lhe a transferência de algum modo verdadeira, ou em “ajudá-la a descobri-la”, como disse ela um tempo depois.  A análise foi levada dentro das linhas habituais, dentro dos limites da técnica analítica aceita. Muitas interpretações transferenciais foram dadas, mas lhe eram completamente sem sentido. A única coisa era que freqüentemente aconselhava ou comentava coisas com os amigos com base em coisas que eu dizia, atribuindo a mim a fonte dessas palavras. Mas nada lhe significavam pessoalmente, e as mudanças eram mínimas. Certamente sua condição apresentou melhora; havia poucos roubos, e suas relações eram de um modo geral mais fáceis. Estávamos próximas de parar, embora soubéssemos que o principal ainda faltava. Podia às vezes levá-la a ver onde transferia algo para o marido ou para os filhos, mas nunca para mim. Sua ligação emocional com a mãe não mudara, e sua lamentação pelo pai não fora atingida.

Contou-me a história de uma criança que penetrou em um quarto proibido, guardado não pelo Barba Azul, mas pela Virgem Maria. Os dedos da criança foram cobertos de ouro que lá achou, e foi expulsa como forma de punição. Em nada resultaram minhas interpretações sobre sua curiosidade quanto ao corpo ou quanto a mim, referindo-me à sua idéia sobre mim como da Virgem com o ouro escondido, que tudo pune e tudo proíbe. Parecia que a chave de sua porta trancada estava fora de nosso alcance.

De repente e de um modo dramático o quadro mudou. Um dia chegou fora de si, muito triste, vestida de preto, as faces molhadas de chorar, em verdadeira agonia. Ilse morrera na Alemanha repentinamente após uma cirurgia.

Eu tinha ouvido sobre Ilse, entre outros amigos indistintamente. Acho agora que a maior parte da transferência havia sido para ela, tendo permanecido secreta, provavelmente devido à culpa por um sentimento homossexual. Era uma amiga contemporânea dos pais de Frieda e havia transferido essa amizade para Frieda, então com seis anos de idade.

Ficou nesse estado por cinco semanas. Mostrei-lhe a culpa que ela sentia pela morte de Ilse, sua raiva e seu medo dela. Mostrei-lhe que sentia que havia lhe roubado Ilse, que ela estava reprovando o mundo, a família e eu, que queria que eu entendesse sua tristeza do mesmo modo que Ilse entendia sua infelicidade na infância e simpatizasse com ela.

Nada pôde alcançá-la, estava fora de contato em toda tentativa. A família foi diretamente afetada com isso. Ela não comia nem dormia, falava só de Ilse, de forma idealizada, fotos espalhadas por toda a casa. Via Ilse nos ônibus, nas ruas, corria atrás dela para dar com alguém que não era a amiga. Ficou surda às minhas interpretações quanto a querer que eu trouxesse magicamente a amiga e quanto se punir por seu sofrimento. Parou de dormir e ficava agitando e tremendo as mãos durante a madrugada.

Sua vida estava evidentemente em perigo, tanto pelo risco de suicídio quanto de exaustão, e eu tinha que entrar de algum jeito nisso. Disse-lhe, por fim, que seu estado era ruim não só para ela e sua família, mas também para mim. Disse-lhe que era insuportável, para qualquer pessoa, estar ao lado dela sem se afetar profundamente. Eu sentia por ela, com ela, sua perda.

O efeito disso foi instantâneo e forte. Acalmou-se e chorou com tristeza. Voltou a cuidar de sua família e alguns meses depois encontrou uma casa maior, necessária há um bom tempo, coisa que até então considerava impossível conseguir. Com esse fato sentiu uma felicidade sem precedentes, sentimento que se mostrou forte e duradouro. Seus impulsos de reparação começaram a agir num estilo totalmente novo.

Sempre lhe falava sobre sentimentos dirigidos a mim, o que não fazia o menor sentido; apenas sentimentos de fato mostrados e expressados podiam significar-lhe algo. Lembrava-se claramente de ter dito à mãe que a amava e que se arrependia de coisas que havia feito apenas de forma irônica; para não falar das expressões exageradas da mãe de um amor pelo pai, logo em seguida negadas.

Mas eu havia expressado também em outras duas ocasiões meus próprios sentimentos. Em uma vez me sentei para ouvir pela milésima vez algo sobre uma polêmica infindável com a mãe a respeito de dinheiro, e pela milésima vez lutei para me manter acordada. Era aborrecido, e de praxe nenhuma interpretação tinha algum alcance, não importando se estivesse baseada no conteúdo, nos mecanismos, na transferência, nos desejos inconscientes, etc. Desta vez disse que estava certa de que o conteúdo de sua fala não era o que importava, que aquilo era defesa, e estava com dificuldade em me manter acordada, entediada com a repetição. A isso se seguiu um silêncio horrorizado, a irrupção de uma raiva aflita, e então me disse estar satisfeita por eu ter dito aquilo. Depois disso referiu-se menos a essas polêmicas, abreviando-se e se desculpando por elas, mas seu significado permaneceu obscuro. Agora sei que estava sendo para ela o pai falecido a quem deveria ter sido capaz de dizer o quanto a mãe era terrível, e que deveria tê-la ajudado na infância a lidar com a patologia mental da mãe. Eu também deveria ter sido Ilse e estar ao lado dela nas dificuldades. Mas se essa interpretação fosse dada, teria encontrado a mesma falta de resposta que em outras interpretações transferenciais.

A segunda vez foi após uma mudança na decoração de minha sala. Ela se gabava de saber como aquele trabalho havia sido feito. Já havia me aconselhado de um jeito paternalista, coisa que interpretei como desejo de controlar minha casa e minha pessoa, e dizer coisas a mim ao invés de falar sobre si mesma. Desta vez eu havia lidado com um paciente após o outro em suas apreciações sobre a decoração e, cansada disso, ao invés de lhe dar uma interpretação disse que não me importava com o que ela pensava sobre isso. De novo ficou chocada e em silêncio, depois furiosa e finalmente  pediu desculpas reais e sinceras. Logo depois disso reconheceu que os conselhos que distribuía aos amigos e às pessoas eram ressentimentos, e que sua ansiedade em controlar o mundo a tornava intrometida e insolente.

Após dizer-lhe de meus sentimentos sobre Ilse após sua morte, relacionou esta fala a esses momentos anteriores, e me disse que pela primeira vez na análise eu havia me tornado uma pessoa real para ela e que eu era muito diferente de sua mãe. Sentia que, toda a vez que eu comentava algo sobre o que ela havia feito, eu era sua mãe e estava dizendo, como sempre, “você é uma pessoa terrível”. Eu sabia disso e havia dito que isso era uma manifestação transferencial, mas o significado disso havia sido negado. Isso significava “e você é terrível”. Ela me chamava de “lição 56 do livro texto”. Agora ela podia ligar o livro texto a revistas femininas que a mãe lia, nas quais havia encontrado muitas de suas manias e caprichos. Meus sentimentos, sendo inegavelmente verdadeiros, eram diferentes dos falsos sentimentos dos pais; lhe permitiram atribuir um valor diferente e novo, à exceção dos relativos a Ilse. Em outras palavras, tornei-me Ilse para ela quando expressei meus sentimentos.

A partir de então as interpretações transferenciais começaram a fazer sentido. Não somente agora sempre as aceitava, mas acrescentava lembrar-se de ter ouvido aquilo antes e só agora estar entendendo, retomando coisas que havia rejeitado anteriormente.

Logo depois disso, pela primeira vez, um padrão com relação ao roubo e outras ações impulsivas começou a se revelar. Percebi que aconteciam apenas quando a mãe a visitava. Mas eram crescentemente perigosos. Uma vez correu na frente de um carro e se machucou, logo após sair da análise, a caminho de sua casa. Noutra ocasião um vizinho me perguntou se uma mulher que atravessava a rua perigosamente sem olhar para os lados era minha paciente. Em outra estava eu em uma via principal próxima à minha casa, muito movimentada, e vi Frieda muito longe da faixa de travessia de pedestres, contornando loucamente os carros, pondo a si mesmo e aos outros em perigo. Mostrei-lhe a relação disso com as visitas da mãe, e com seu comportamento suicida e homicida. Ela rejeitou a idéia, bem como outras de si mesma como alguém doente, do mesmo modo que fazia antes com interpretações transferenciais.

Poucas semanas depois, enquanto a mãe estava com ela, foi pega viajando sem passagem, com pressa e sem trocado. Isso a levou à corte de justiça. Dei-lhe um atestado, colocando que estava em tratamento por comportamento impulsivo e que era uma pessoa honesta e de confiança (o que era verdade). Isto, assim como a expressão de meus sentimentos, causou uma impressão muito forte, pelo contraponto com o rótulo de “mentirosa” e ”ladra” colocado nela pelos parentes. Seu pai tentaria se matar se descobrisse que a filha era uma ladra.

Começou a reconhecer e temer sua atuação perigosa, mas isso não cessou.

Durante a visita seguinte da mãe, roubou novamente e eu disse que não me responsabilizaria mais por sua análise se recebesse a mãe outra vez. Já havia lhe dito que considerava a presença da mãe um risco. Na visita seguinte da mãe roubou novamente e eu repeti o que havia dito.

Mostrei-lhe que não havia acreditado no perigo, na realidade de sua doença, ou na seriedade de minhas palavras. Disse que de fato iria interromper a análise se aquilo se repetisse.

Nesta ocasião passou várias sessões me dizendo do mau comportamento de uma criança que estava de visita em sua casa. Falou-me também da desobediência de sua filha pequena, e lhe perguntei o porque de não ser possível ser firme e não permitir que repetissem as mesmas coisas. Era uma velha história, ela não conseguia obediência dos filhos sem ir a um estado furioso e ameaçador para cima deles. Permitia que fizessem o que escolhiam, racionalizando isso como ser “moderno”, ou “avançado” e eles dormiam tarde, faltavam à escola, etc, e nem ela nem o marido conseguiam fazer algo a respeito disso. De fato, inconscientemente, encorajavam isso.

Perguntei-lhe o que aconteceria se me recusasse a continuar ouvindo essas histórias. Estava tão cansada delas quanto ela da desobediência dos filhos. Ela não soube o que dizer e mudou o assunto. Disse que era sério o que estava falando, que não estava mais ouvindo aquelas histórias. Ela ficou em silêncio e então deu um riso amarelo e disse: “é terrível . E é glorioso ouvir isso de você. Ninguém nunca falou assim comigo, eu não sabia que seria desse jeito. Você sempre me diz para falar para meus filhos que não vou permitir certas coisas, mas eu não sabia como fazê-lo” . A partir disso foi capaz tanto de dizer, como de aceitar um não.

Agora, quando disse que a análise não prosseguiria se permitisse a vinda da mãe outra vez, lembrei-a disto e de que ela tinha achado isso “glorioso”. Nos três dias seguintes ficou confusa e em pânico. Depois que isso passou começou a pensar em como faria para impedir a permanência da mãe. Alojou-a por algumas semanas em outro lugar e então a questão voltou. Eu diria a ela como proceder? Podia deixar vir a mãe e sair para dormir em casa de amigos? Mostrei que isso não era uma solução e que devia achar uma saída própria. Depois de mais pânico e fúria falou pela primeira vez à mãe sobre a análise, e que eu havia proibido a visita. Era o mesmo que dizer à mãe “você é uma pessoa terrível”.

No dia seguinte teve um impulso de roubar maçãs do vizinho; mas no momento em que ia entrar pela cerca com sua cesta se deteve, e mandou mais tarde um dos filhos pedir por algumas. Ficou muito satisfeita e surpresa ao recebê-las.

 Mostrei-lhe que, na verdade, receber a mãe era uma maneira de me desafiar, bem como ao me obedecer, e que seu comportamento modificado com relação às maçãs dependeram de sua capacidade de aceitar um não meu e dizer um não para sua mãe. Ela me achou confiável ao dizer tanto uma coisa quanto outra e considerou que mesmo que se de fato eu parasse a análise, não ficaria com raiva. Começou a acreditar em realidades antes negadas. Seus sentimentos em relação à análise começaram então a se modificar, começou a sofrer realmente, especialmente nos finais de semana. Uma hora não era suficiente, me queria todo o tempo e vivia sua análise durante o dia todo, mesmo fazendo seu serviço com mais eficiência e vivendo a vida de outra maneira. A transferência se tornou finalmente uma realidade para ela.

Algumas dificuldades surgiram: na arrumação da manta do divã, em decidir se me trazia garrafas de leite encontradas na escada. Eram dificuldades antigas, e quis fazer outra coisa com elas; aqui podia mostrar-lhe quantos sentimentos a meu respeito estavam ali representados. Descreveu-se como dividida, eram essas suas palavras, e me mostrou por gestos quão dispersos os pedaços estavam. Lembrei-lhe que em um outro momento uma das partes estava aqui, e outra na Alemanha, em Ilse. Descobriu que queria me olhar com “óculos roubados”, e que possuía duas crenças, eu era a mãe em uma e Ilse em outra. Ambas tiveram uma força delirante e com uma qualidade alucinatória que agora podia confrontar com a realidade. O roubo veio diretamente para a transferência e se viu viajando sem pagar a passagem em sua jornada até mim.

Nessa época encarou mais de perto meu ódio por ela do que anteriormente, de um modo que teve um significado muito real para ela. Para sua surpresa, um dia nos encontramos por acaso em um concerto, e em seguida na sala dos músicos: “não sabia que você conhecia X”, disse muito zangada, e no dia seguinte descobri que queria dizer “com que direito você estava lá?”. Foi possível dizer então, coisa que já havia tentado muitas vezes, de como ela queria ter um controle mágico e tomar posse de mim em todos os lugares. Muito de sua ida ao concerto era para ir comigo, e me encontrar lá, de verdade, perturbara sua fantasia. Mostrei também o que significaria para mim tê-la encontrado sempre, ter-me oposto contra sua possessividade naquela situação, segundo uma idéia dela mesma, revelada em sua fala e seu comportamento, em que não só me possuiria, mas também o teatro, os artistas e até os compositores.

O reconhecimento de sua fantasia onipotente fez com que percebesse que esperava algo inatingível e mágico de sua análise. Acreditara que retornariam o marido, os filhos, a mãe, os irmãos, de volta à infância, e seu pai e Ilse voltariam à vida de novo. Seus “óculos roubados” realmente capacitaram-na a me ver como uma pessoa pela primeira vez. “Descobri algo; é doloroso, não me agrada muito. Descobri que nada sei a seu respeito, nada. Tenho sido muito boba fazendo um esforço absurdo para fazer de você algo que você não é. Achava que sabia e me esforcei, com toda a futilidade possível, para entender, lendo Freud, Melanie Klein. Dispêndio inútil de energia! Sinto-me tão idiota! Eu estava forçando você. Sinto muito, mesmo!”. Disse-lhe que não precisava sentir muito. Ela me fuzilou com os olhos e explodiu: “vou sentir muito se eu quiser!”, e então me contou de um jogo secreto de associações nas quais pensava em um perfume, um prédio, um livro, para “associar” comigo. Agora, seus óculos secretos lhe mostravam quão irreal tinha sido tudo isso.

No dia seguinte me resfriei e ela se sentiu impossibilitada de falar, como se tudo que dissesse fosse um ataque contra mim. Reconheceu que queria algo mágico, duas coisas opostas numa só, estar lá e ir embora, me proteger e me destruir. Agora via que nenhuma quantidade de análise tornaria isso possível.  Falei do mundo secreto de sua imaginação e do mundo real e exterior. Só em um mundo interior as coisas podiam ser daquela forma e se esses mundos interiores de cada uma de nós pudessem às vezes se encontrar, isso não fazia deles a mesma coisa. Ela estava em silêncio e, assim pensei, quase adormecendo. Cobriu-se com a manta do divã. Quando se descobriu disse que estava fazendo uma experiência. Pensou: “se eu ficar quieta, posso ficar aqui e não ficar aqui, e você vá dormir, querida, se quiser”. Sentiu-se aliviada e inteira pelo trabalho feito. Disse-lhe que ela aproximou o mundo interno e o externo, permitindo-se ter seu próprio e deixando-me ter o meu. Tinha sido alguém inteiro e separada de mim.

No outro dia achou que pôde fazer algo sem planejar e descobriu que foi bom. Antes nunca havia sido possível. Descobriu alguns sentimentos novos, cujo significado não sabia ao certo; sentiu gratidão por uma pessoa de quem não gostava e sentiu-se capaz de ajudar as pessoas de alguma maneira. Sentiu diferença nas pessoas e em si mesma. Antes era arrogante, agora podia ser amável e gostar de si mesma. Disse-lhe que agora podia gostar e não gostar da mesma pessoa, e por essa razão já não precisa me dividir em duas.

Lembrou-se de um incidente ocorrido aos quatro anos de idade. Estava com o pai fora de casa, segurando uma vareta cujo tamanho poderia ser semelhante ao de seu pênis. Ele tomou-lhe a vareta das mãos, atirou-a num rio, e ficou indicando a vareta se afastando, sobre a água, embaixo da ponte, e disse que assim fizera por causa de seu temperamento rebelde. Ela não podia sentir como se isso tivesse algo a ver consigo mesma, dessa vez não estava sentindo nada contra ele. Agora percebia que de fato havia pensado que aquilo era o pênis dele e que se desapontou e ficou com raiva quando ele o retirou de suas mãos. Agora sabia, era verdade, conforme eu havia dito, que nunca pôde se entristecer com a morte dele; já que essa morte “não tinha nada a ver com ela”, “não a havia provocado por raiva”, ao mesmo tempo em que era essa a sua crença.

Podemos ver aqui claramente quantas coisas foram difíceis no início da análise por causa de sua dificuldade de simbolizar. Por exemplo, sempre lutou contra si mesma quanto a trazer os litros de leite que encontrava na entrada. Era-lhe totalmente impossível decidir, e era inútil interpretar, ou dizer que isso não tinha importância. Ela dizia agora que as garrafas de leite não apenas me representavam, mas eram a minha pessoa, e tinha vontade de chutá-las da escada, como lhe fizeram os pais e o carro que a atropelou. No delírio chutava-me de fato. A manta tinha o mesmo significado. Ao menos ficou livre deles, outra pessoa podia cuidar disso, não era mais sua responsabilidade.

Sua ambivalência ficou mais nítida. “Eu te detesto porque gosto muito de você”, disse, e de novo: “Que você se dane e se estrepe, e que seja abençoada, por ser tão amada por mim”.

Separações passaram a ser aceitas, a fusão e a perda de identidade tornaram-se mais raras. Junto com a dificuldade de aceitar uma coisa ou outra está a dificuldade de sinceramente se permitir apenas me odiar ou apenas me amar, agora que sou alvo das duas coisas, ao invés de ser amada enquanto a mãe é odiada, odiada enquanto Ilse é amada.

Descreveu como se sentia “dentro de uma cápsula, tentando sair, mas com tudo perdido dentro”. A cápsula era transparente, ou mais: invisível. Lembrou-se de quando aos seis anos, tendo desenhado um círculo na areia com os pés, dançando dentro dele e acreditando-se invisível, ficava totalmente desnorteada quando alguém falava sobre como ela ficava. Algo semelhante ocorreu tempos depois na escola, quando supôs que as pessoas não podiam vê-la comendo bocados de pão sob a carteira.

Aqui afinal, pelo menos na opinião dela, estava o delírio básico através do qual havia vivido, e que havia sido sua maior defesa contra a análise.

Relacionei com uma observação que fiz muitas vezes antes, quando achava que ela havia testemunhado a cena primitiva num espelho, sendo eximida de ver diretamente. Falei da dificuldade de compreensão a respeito dos espelhos se alguém não está lá para mostrar à criança o reflexo dela, ou que haja ao menos a presença de algum objeto familiar e identificável, que possa ser visto tanto no espelho como fora dele. Ela me disse: “Você sempre me falou sobre ter visto meus pais no espelho, e eu não acreditava. Não me lembro disso, mas sei de que lado meu berço está, está à direita, e sei isso. Posso ver um quarto, mas a mobília é estranha, não a conheço”. Lembrou-se de ter ouvido que no segundo ano de vida o pai encontrou um novo emprego e por um curto período a família ficou em um hotel. Foi a única vez em que dormiu no quarto dos pais até onde sabe, e tal lembrança havia sido negada.

A cápsula significa, entre outras coisas, sua identificação com o pai, o pai mágico que não podia tocar. Representa também o pênis mágico e invisível graças ao qual podia continuar a fazer uma unidade com a mãe e com Ilse. Ilse havia ficado na invisibilidade até o dia em que sua morte despedaçou a cápsula e revelou sua presença. Minha identificação com Frieda em sua perda e tristeza restaurou a cápsula, mas comigo dentro, no lugar de Ilse.

Foi o que tornou possível tanto o luto pelo pai quanto por Ilse, através da análise da transferência que até então não era acessível.

Quebrar a cápsula, descartar o delírio significava a aniquilação, por separação e fusão. Apenas se alguém de fora invadisse com poder e segurança ela poderia emergir como alguém vivo, dotado de sentimentos, e só uma pessoa com sentimentos reais podia tornar seus sentimentos viáveis. Tudo tinha que ser salvo de um jeito mágico e invisível, fora do alcance dos impulsos primitivos de amor-ódio. Agora está sentada entre as ruínas de um mundo que ela espatifou, pensando em uma maneira de restaurá-lo. Restaurá-lo sem ter que trazer de volta o pai, Ilse, ou fazendo a felicidade dos pais quarenta anos atrás, mas usando a imaginação em novas atividades criativas que já operam nela, e que chamamos de sublimação.

Está feliz como nunca. Sua amargura ainda não passou, mas caminha nesse rumo. Sua casa é um lugar mais seguro para o marido e para os filhos, pode manter sua palavra, pode discordar do marido sem ter um ataque de fúria na frente dos filhos, como era o costume, e permite que tenham sua individualidade. Sua vida sexual mudou; pode agora apreciar e experimentar orgasmos genitais. O rash cutâneo raramente a atormenta e o mundo onde vive está se tornando saudável e normal (embora possa haver coisas loucas nele), ao invés de ser hostil, anti-semita e louco. Sabe que é através da morte de Ilse que está melhorando, aceitou seu prazer nessa morte, seu ódio, seu amor destrutivo e sua tristeza.

Não entrei na questão complicada da psicopatologia do caso. Para meu propósito é suficiente dizer que sua capacidade de desenvolver um senso de realidade estava bastante comprometida, que a simbolização e o pensamento dedutivo estavam amplamente substituídos por pensamento concreto. Não distinguia alucinações de impressões visuais e auditivas reais. A divisão do ego, quando ainda era um ego corporal, havia resultado em uma falha persistente em fazer percepções acuradas, ou deduções precisas a partir de suas percepções. Consecutivamente todas as suas transferências eram delirantes, e nelas estavam baseados os relacionamentos pessoais.

Ela teve de ser alcançada, camada por camada de negações e de rupturas, num nível de dependência desvalida e sem separação, o nível de seu delírio paranóide. Isto precisou ser rompido do jeito mais direto possível, ou seja, pela via de um analista que é uma pessoa real.

VII - IMPLICAÇÕES TÉCNICAS

A crescente compreensão de que para muitos pacientes não é possível fazer uso de interpretações transferenciais, até que algumas mudanças ocorram e tornem o ego acessível, leva à questão de quais alterações na técnica são necessárias, bem como em sua teorização.

Dificuldades em fazer com que interpretações transferenciais sejam aceitas, o aparecimento de repentinas e imprevisíveis tensões, que frequentemente resultam em violentos “acting-outs”, além de outros eventos, são consideradas resultado de alguma insuficiência no analista: insuficiência na análise, falha em lidar com suas próprias ansiedades, “acting out” de sua parte.

A verbalização, a compreensão, e a interpretação foram consideradas primordiais. Mas há muito tempo se reconhece que a perlaboração é um processo essencial na análise. É importante compreender o que acontece durante o processo, e se há algo a ser feito em auxílio.

Ao olhar para pacientes como esta, encontramos aqueles cujo senso da realidade é seriamente prejudicado, que não podem distinguir delírios e alucinações da realidade, que não podem usar interpretações transferenciais, porque a transferência é por si mesma de natureza delirante. Interpretações transferenciais pedem pelo uso de pensamento dedutivo, pela simbolização, e pela aceitação de substitutos. É impossível transferir algo que não está lá para ser transferido, e para estes pacientes suas experiências iniciais não foram capazes de construir nem o que precisa ser transferido, nem a figura de uma pessoa sobre quem a transferência é possível. Vivem no mundo primitivo da primeira infância, e suas necessidades têm de ser encontradas no nível do narcisismo primário e do delírio.

Caminhos têm de ser encontrados para apresentar a realidade a esses pacientes, muitos dos quais não podem fazer uso dela, do modo como se apresenta comumente em suas vidas.

A realidade que se apresenta, disponível, em toda análise é o analista em si mesmo, suas funções, sua pessoa, e sua personalidade, a quem cabe encontrar maneiras de usá-las para descobrir as necessidades individuais de seu paciente, descobrir o que é viável, e impor seus próprios limites frente às ansiedades do paciente, e tanto quanto possível, determinar com consciência o que irá fazer ou não, embora disposto a agir no impulso, e se for o caso, reagir. É parte de sua aceitação de si mesmo, conforme seu ser.

Nos primeiros dias da psicanálise nenhum analista havia sido muito analisado, ou possuía muita experiência (tanto própria quanto de outras pessoas) para melhores definições do trabalho, e naquele tempo a “análise selvagem” de fato promoveu situações perigosas e sem manejo possível. Mas as condições hoje são diferentes, e podemos colocar à prova se certas coisas são perigosas, ou impedem a análise. Muitas afirmações deste tipo parecem possuir a qualidade mítica e supersticiosa dos julgamentos do superego.

Temos de reconhecer que paradoxos encontrados em outras áreas da vida também existem na análise - que a mesma coisa pode ser tanto boa quanto ruim, e que o mais valioso pode ser perigoso e inútil. Isto é verdadeiro tanto na interpretação de transferência quanto ao responder questões, expressar sentimentos, na ação ou no impulso, etc., pelo analista. O que de fato é necessário é flexibilidade, confiabilidade, e vigor (em oposição à rigidez), e boa vontade para usar quaisquer recursos disponíveis.

O que tentei mostrar é que o resultado que todos esperamos obter pode ser atingido se tivermos disposição para abordar a atitude do analista para com seu paciente por um novo ângulo, e reconhecer atitudes tomadas em uma análise, mas frequentemente desprezadas ou não admitidas.

               Dou cada vez mais atenção a esse ponto. Comecei a elaborar meu modo de trabalhar a partir de 1937, antes mesmo de começar minha formação como analista. Mais tarde, tentei descartar o que já tinha, em favor de uma técnica mais clássica ou menos “não - ortodoxa”, e falhei com um certo número de pacientes que ainda sinto que poderia ou deveria ter sido capaz de tratar. Na prática o que faço varia muito de paciente para paciente. Isto é em si uma expressão da individualidade do paciente, e uma confirmação que não imprimo neles algo que me pertence, e não a eles. Esta abordagem tem tanto vantagens quanto desvantagens. A mensuração quantitativa nunca é possível na análise, mas os testes e checagens podem ser aplicados, como em todo nosso trabalho.

A impressão clínica inicial sobre a doença do paciente pode ser uma reavaliada à luz de sua resposta às interpretações transferenciais. Se tais interpretações são constantemente sentidas por ele como sem sentido, mesmo se na verdade mostrarem significar algo em algum lugar, ou se, ao contrário, são aceitas, mas não há mudanças comportamentais ou nas formas de pensar numa ou noutra situação eu consideraria o fato como patognomônico da presença de uma profunda cisão e de um alto nível de ansiedade paranóica; sendo a defesa contra isto maior no segundo caso que no primeiro.

Significa que as formas de tornar o ego acessível às interpretações transferenciais têm de ser encontradas. O que quer que seja encontrado deve passar por um minucioso exame habitual.

Minhas próprias questões são mais ou menos estas:

_ Porque faço ou digo isto?

_ Como relato coisas para mim mesmo - conscientemente ou inconscientemente?

_ Por quê X e não Y?

_ Eu poderia fazer ou dizer determinada coisa para o paciente em outras circunstâncias, outro dia, outra hora?

_ Que efeitos isto tem, e por quê?

_ Seguiu-se novo material?

_ Há algum real desenvolvimento do ego?

_ Poderiam os mesmos resultados ser obtidos de outra forma? Mais rapidamente? Melhor?

_ Se sim, como, porquê? E porquê não fiz algo diferente?

 

Ninguém pode responder sempre suas próprias questões prontamente. Algumas vezes as respostas revelam-se erradas; algumas vezes não há resposta a ser encontrada, exceto que aquilo parecia ser o melhor na hora, ou era a única coisa encontrada para dizer num momento onde algo tinha de ser dito. Os eventos subseqüentes geralmente mostram se era correto ou não, e quando não é interrompida uma análise em que alguém fez algo fora do senso comum, adquire-se mais confiança em processos inconscientes. Contra-resistências parecem cair mais rapidamente, o trabalho avança para tensões maiores, e a maior espontaneidade do analista ajuda o paciente a romper com a própria rigidez e com o estereótipo.

A maior dificuldade reside em um estado generalizado de falta de expectativa. Não significa que está tudo fora do controle, embora frequentemente seja esta a sensação diante do paciente. É na verdade um estado no qual as coisas podem acontecer. Existe de fato um risco de que possa haver um repentino desajuste no paciente, ou no analista, quando um fator inesperado aparece. É algo que pode acontecer em toda análise, e deve ser manejado.

Este relato da análise de uma paciente, condensado como tem de ser, pode ser muito enganoso. As variações da técnica que mostrei nem sempre dão certo. Quando dão, o efeito é bastante parecido ao de alguma interpretação certa; poderá haver rejeição primeiramente, e aceitação mais tarde, aceitação ao longo do percurso, ou não haver efeito imediato a ser visto, e pode aparecer mais tarde. Quando são mal sucedidas, como nas interpretações, pode acontecer algo ou não. Como em interpretações comuns, se a hora é certa e são apropriadas, os efeitos são bons; se não, os efeitos são maus, e estão erradas como qualquer outro erro. Na análise de Frida, as coisas que citei tiveram sucesso, e não foram erros; achei que não eram apenas pura sorte, pois experimentei coisas semelhantes em outras análises com resultados similares.

Seu propósito é bem claro, e delimitado. Destina-se a fazer o ego do paciente acessível à interpretação transferencial, através da ruptura de uma transferência delirante .

A interpretação não faz nenhuma impressão no delírio; a única coisa que o faz é a apresentação da realidade, de um modo comparável ao acordar de um sonho. Isto é, descobrir que algo que se acreditava ser literalmente verdade é falso, pela confrontação com o que é verdadeiro. A interpretação comum, entretanto, não é dispensável, nem deste modo substituível; permanece a resistência. O trabalho de interpretação comum tem de continuar antes, durante e depois de eventos como os descritos, e ainda é a principal parte da análise. Sem isso todo o resto seria inútil, mas nos casos em que a transferência é de natureza delirante, aqueles eventos são a única via que torna a interpretação comum significativa e utilizável, e assim um ser humano pode ser descoberto pela interpretação.

VIII - Resumo

Tentei mostrar certos elementos, alguns dos quais considero essenciais, na resposta total do analista às necessidades de seu paciente, alguns modos de usá-los diretamente, e os tipos de efeitos que encontrei em seu uso direto. São coisas que na minha opinião devem ser discernidas em algum ponto de toda a análise. Aparecem mais obviamente na análise de pacientes muito perturbados, e menos nos neuróticos. São implícitos ou explícitos, em toda boa e bem sucedida análise realizada, e algo deles se encontra em todas as análises em alguma medida bem sucedidas.

O amor e o ódio total do analista por seu paciente, provedores da força motriz de sua resposta total, contém tanto elementos que são básicos e invariáveis quanto elementos variáveis. A análise, na mesma medida em que a participação do analista está ali implicada, depende principalmente da qualidade da porção básica, invariável. Isto, por sua vez, depende da extensão em que o mundo onde vive o analista é são e amistoso, isto é, como se encontra sua capacidade de lidar com suas ansiedades paranóicas e suas depressões - ansiedades inseparáveis do trabalho feito. Se puder contar com ela, e conseqüentemente consigo mesmo, provavelmente será seguro para seu paciente faze-lo igualmente, cada vez mais. Se não, isso não apenas lhe será provavelmente inseguro, mas também impossível.

São fatores básicos e invariáveis que dão a estabilidade da análise (repetindo: na medida em que o analista está implicado). Elementos variáveis, a contra-transferência inconsciente, as variações ao longo do tempo na quantidade de tensões que suporta, sua saúde, suas preocupações exteriores, tudo tende a trazer dificuldades, especialmente se a gama de variações for muito ampla. Isto também faz parte da responsabilidade do analista; deve zelar para que o grau de variação não seja tão grande, e não permitir que tais variações sejam totalmente bloqueadas ou apareçam a todo momento. Mas mesmo isso, assim como tudo a que me referi, pode ser tanto valioso quanto prejudicial; fazem parte da vida do analista, e dão vida e movimento nos trabalhos analíticos.

A análise é algo vivo, e como tudo que é vivo, muda o tempo todo. Mesmo com poucos anos de sua existência, podemos ver muitas mudanças, especialmente no campo da técnica. Há pacientes que são hoje tratados e que não teriam sido aceitos em tratamento há poucos anos atrás; Mme. Klein recentemente nos lembrou que as análises de crianças e a interpretação da transferência já foram uma vez olhadas com desdém. Não podemos saber o que a análise se tornará no futuro; podemos apenas saber que mudará, que contribuímos com o seu futuro, e que mudanças atuais parecerão diferentes para aqueles que vierem depois de nós.

A “contra-transferência”, nos diversos significados da palavra, é um fenômeno familiar. De início, como a transferência, era considerada perigosa e indesejável, mas nem por isso inevitável. Atualmente chega a ser até mesmo respeitável!

Mas sinto que deveria ser mais que isso. Não sabemos o suficiente sobre nossas respostas aos nossos pacientes, e temos sido (sabiamente) cautelosos em usá-las. Mas há uma grande porção de energia psíquica nelas, queiramos ou não, aproveitemos ou não o benefício completo dessa energia. Tanto para nossos pacientes como para nós mesmos, devemos nos abrir a experiências, e mesmo assumir alguns riscos. Estou certa de que a experimentação por analistas experientes e treinados é essencial para o crescimento e desenvolvimento da psicanálise, embora requeira uma base de responsabilidade, conhecimento, e boa vontade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tradução de Carlos Martinez



[1] Stand-in (cin.): extra que substitui o artista até o início da filmagem, suplente (NT).