(Transference
and Counter-Transference)
Alice e Michael Balint
The International Journal of Psycho-Analysis
Uma questão freqüente em
discussões técnicas em psicanálise é se a transferência é trazida apenas pelo
paciente ou se o analista tem alguma participação nisso. Em tais situações uma
opinião é sempre enfaticamente colocada por alguns analistas. É mais ou menos
assim: “no momento em que o analista influencia a situação transferencial, por
outros meios que não a interpretação, ele comete um erro grave”. O propósito
deste artigo é investigar se e o quanto esta opinião corresponde aos fatos.
O fenômeno da transferência
se demonstra melhor quando seu objeto é inanimado, sem vida, como a porta que
se bate por causa de uma raiva então presente. Com um ser vivo a situação se
torna infinitamente mais complexa, porque
a.
a segunda
pessoa também busca se desembaraçar de emoções incômodas transferindo-as para a
primeira
b.
haverá uma reação
às emoções transferidas a ele pela primeira. A situação não tem saída, a menos
que um dos envolvidos se encarregue de não transferir quaisquer de seus
sentimentos ao outro por um determinado período, ou seja, que se comporte por um certo tempo como um ser inanimado. Tal concepção
fundamenta a comparação de Freud freqüentemente citada, de que o analista deve
se comportar como a superfície bem polida de um espelho – o que é algo sem
vida. A análise é também muito comparada a uma operação cirúrgica, e o
comportamento do analista com a esterilização do cirurgião. De novo temos a
situação de ausência do vivo, uma vez que “estéril” significa originalmente “o
que não produz nem safra nem frutos”.
O fato de que
possa haver transferência tanto para seres inanimados quanto para seres vivos
esclarece parte de nosso problema, na medida em que mostra que a transferência
pode ser um processo unilateral, ou seja, que pode surgir sem a
participação de outra pessoa. A opinião que demanda ao analista que ele não
participe, de modo algum, da formação da transferência é, sem qualquer dúvida,
reforçada por este fato. Examinemos o quanto tal demanda de perfeita
esterilização é satisfeita na técnica analítica real. Ou seja, verifiquemos se
a “passividade” (que no contexto indica algo muito próximo do termo
esterilização) do analista está de fato livre de qualquer traço de sua própria
transferência.
Freud
fez uma discussão ampla sobre alguns dos elementos que inevitavelmente
atrapalham o ideal de esterilização e devemos considerá-los em seus detalhes.
Ele enfatizou o fato de que a análise não se dá em um compartimento hermético:
o analista tem nome, é homem ou mulher, tem uma idade, uma casa, etc; em um
amplo sentido transferimos estes elementos de nossa personalidade para nossos
pacientes. É preciso uma certa habilidade técnica para
lidar com as reações provocadas por esses elementos, sempre discutidos nas
análises de supervisão bem como em seminários técnicos.
Há,
entretanto, muitos outros fatores pessoais que, embora sejam discutidos por analistas
em círculos privados com o mais vivo interesse, nunca ou quase nunca são
mencionados publicamente.
Um detalhe que o exemplifica
é o “problema da almofada”. Há diversas soluções para isso:
a.
a almofada é
a mesma para todos os pacientes, mas um pedaço de papel é colocado sobre ela e
jogado fora no término da sessão;
b.
a almofada é
a mesma mas é dado para cada paciente uma capa especial e diferente das outras,
no formato e no design, e é colocada por ocasião de cada sessão.
c.
cada paciente
tem sua própria almofada e deve usar apenas essa
d.
há apenas uma
almofada ou apenas duas ou três para todos os pacientes, que escolhem por conta
própria.
Tais possibilidades podem ser
multiplicadas por três, a partir da possibilidade de que o analista, o paciente
ou um funcionário manipule a almofada.
São bagatelas, cuja discussão
tão extensa é quase ridícula. E ainda, tais bobagens parecem ter uma certa importância na formação da situação
transferencial. Por exemplo, um paciente, que por motivos
alheios à sua vontade teve que mudar de analista, sonhou que o primeiro
trabalhava em um banheiro bastante moderno, imaculado, equipado com
higienizadores refinados, ao passo que o segundo trabalhava em um lugar
antiquado, sujo e malcheiroso. O sonho na análise mostrou claramente que o
paciente chegou a algumas conclusões sobre as diferenças de atitude dos
analistas quanto à limpeza a partir do modo como cada qual tratava a questão da
almofada. Ninguém questionaria que o curso de uma análise conduzida em uma
atmosfera como a da primeira parte do sonho seria diferente na atmosfera da
segunda parte. Não nos importa neste momento o problema das condições que
favorecem ou não o progresso de uma análise. Queremos apenas evidenciar que
diferenças na atmosfera analítica são trazidas pelo próprio analista. (Deve-se
ter em mente que cada um dos dois analistas teve a mesma atitude para cada um
de seus pacientes, e que a contribuição na atmosfera foi a
mesma em todos os casos. Depois voltaremos a este ponto.)
Isto vale para uma série de
detalhes semelhantes. Outro ponto importante é o modo como a
sessão é finalizada. Alguns se levantam de suas cadeiras, dando deste modo o
sinal. Outros simplesmente o anunciam com fórmulas estereotipadas; outros
tentam inventar uma forma para cada sessão; alguns começam a se mexer em suas
poltronas e o paciente deve inferir pelo som que o tempo acabou; outros usam
relógios e alarmes, ou colocam o relógio à vista do paciente para que ele veja
a passagem do tempo. Há igualmente o divã, que pode ser baixo, largo, confortável
ou o contrário; a cadeira do analista, o arranjo da sala – se deve ser decorado
como um escritório ou como uma sala de visita, ou se deve ficar sem mobiliário
algum, exceto pelo divã e a poltrona – o método de iluminação da sala, etc.
Os elementos citados são
elementos tangíveis do comportamento do analista. Não há nenhuma inferência
extraordinária na conclusão de que muitos outros elementos de influência
pessoal como estes em nossa intangível atitude analítica como tal. Por exemplo,
alguns analista são parcimoniosos na interpretação, e
dão alguma apenas quando sua justeza é praticamente certa; outros são mais
generosos, mesmo com o risco de não estarem todas corretas. Alguns não
encorajam a fala de pacientes silenciosos, outros o fazem com freqüência, e
assim por diante.
Temos ainda o problema,
bastante delicado e complexo, da interpretação: interpretar o que, quando e
como. É notório que os defensores de diferentes métodos de interpretação, bem
como seus críticos, estão inclinados a pensar que apenas sua técnica é correta,
e consideram que as outras são erradas ou danosas, o que
provoca uma suspeita de que algum elemento pessoal tome parte na avaliação dos
vários modos de resolver o problema, uma vez que diferenças observadas
nos resultados não correspondem à importância dada à questão, conforme apontado
por Edward Glover no Congresso de Paris em 1938.
Nos últimos quinze anos
diversos procedimentos foram sugeridos. Vamos citá-los e para cada um deles
citar a crítica correspondente:
1.
O comportamento característico do paciente deveria ser
interpretado logo, bem no início do tratamento, até mesmo na primeira sessão,e isso deve ser reiterado repetidamente. Outra
opinião afirma que tal procedimento propicia uma resistência desnecessária no
paciente.
2.
Acima de todo e qualquer significado, aquele que se
refere à situação analítica, à transferência, deve ser interpretado. A opinião
contrária diz que a trilha para as situações infantis deve ser seguida primeiro.
3.
Uma interpretação profunda deve ser dada logo que
possível: quanto mais cedo a interpretação maior sua
eficácia; outros advertem a este respeito quanto à necessidade de haver
evidências suficientes, que tornem uma interpretação como esta inquestionável
para pacientes resistentes.
4.
Mecanismos defensivos devem ser primeiro
interpretados, a despeito do material infantil, mesmo que este seja muito
evidente; outros sustentam que ambos devem ser interpretados concomitantemente,
etc.
Mas além dessas grandes
diferenças, nuances muito finas, presentes na formulação de uma interpretação
ou mesmo em alguma formulação mais indiferente, a escolha de um sinônimo entre
outros, a acentuação ou não de certas palavras, e mesmo sua entonação e sua
cadência, são naturalmente diferentes de analista apara analista. O melhor
argumento para a presença de algo pessoal em tudo isso é algo que analistas
supervisores freqüentemente dizem: “o que você disse ao paciente estava
correto, mas eu o teria dito com outras palavras e certamente em outro tom”.
Em adição a estas variações
na técnica que caracterizam a atitude geral do analista em relação a todo os seus pacientes, há aqueles que emergem de nossa
adaptação consciente ao que um caso requer, em particular. Com uma criança, por
exemplo, devemos nos comportar de modo diferente que com um adulto; é prática
comum chamar uma criança por seu primeiro nome, bem como permitir que ela
também o faça conosco; a ela é permitido e mesmo encorajado brincar durante a
sessão; ela poderá nos tocar, algumas vezes de modo suave, às vezes de modo
agressivo, etc, etc. É quase o mesmo com os psicóticos. A semelhança entre a
análise de crianças e a análise de psicóticos foi descrita e enfatizada tantas
vezes que se tornou lugar comum.
É evidente que cada paciente
requer um tratamento próprio, diferente, e que as diversas análises de um mesmo
analista diferem entre si. Mesmo assim, é inegável que há muitos modos diversos
e individuais de analisar diferentes atmosferas analíticas, quer dizer,
mantidas e criadas por técnicas e particularidades de um determinado analista.
Naturalmente certos traços psicológicos seguramente acompanham alguns dos
detalhes materiais, tangíveis, descritos acima.
Retomando a metáfora do
espelho, não é surpreendente que haja tantos modos individuais de analisar? E não é mais surpreendente ainda que no caso de analistas didatas,
todos os seus pupilos, no início de seu trabalho “independente”, sejam
predispostos a usarem seus métodos, da forma da interpretação à decoração da
sala, no anúncio do término da sessão, dando-nos uma prova convincente de que a
verdadeira fonte destes traços recorrentes é a transferência, descrita
eufemisticamente, no caso do analista em situação de análise, como
contratransferência? O perigo de ficar emperrado em tal transferência é
um dos argumentos em favor da demanda de que parte da análise de supervisão
seja conduzida por outro analista (melhor ainda se por outros), e não apenas
pelo analista didata.
A partir deste ponto de vista
a situação analítica é vista como o resultado de uma interação entre a
transferência do paciente e a contratransferência do analista, complicada por
reações suscitadas em cada um pela transferência produzida sobre si. Se for
assim, e é assim, não devemos concluir que não existe um método “esterilizado”
de análise e que a opinião citada no início deste artigo se baseia em um ideal
jamais atingido? A crença absoluta e inicial na validade da atitude semelhante
a um espelho era tão firme que sua contestação era tomada como um sinal de
deserção. Hoje, e não apenas neste artigo, a própria possibilidade de tal
atitude é colocada em dúvida. O fato de que estas duas posições possam ter sido
concebidas, ambas apoiadas por uma grande experiência clínica, explica as
freqüentes discussões sobre o tema e justifica a escrita deste artigo.
Apenas pela experiência
clínica podemos chegar à solução da controvérsia. A segunda opinião nos levaria
a esperar que atmosferas analíticas criadas pela personalidade do analista
exerceriam uma influência decisiva sobre a situação analítica real e,
consecutivamente, sobre o resultado terapêutico. Surpreendentemente não é o que
parece ocorrer. Nossos pacientes, com raras exceções, se adaptam à maioria das
diferentes atmosferas e avançam com sua própria transferência, quase sem se
deixar perturbar pela contratransferência do analista. Isto implica em que tais
técnicas são suficientemente boas para dar condições a pacientes com problemas
comuns no desenvolvimento da vida emocional para que construam uma
transferência favorável ao trabalho analítico. Embora defensores de uma ou outra
técnica, especialmente aqueles de certos métodos particulares de interpretação,
advoguem que todos os métodos, com exceção do próprio, são menos eficientes, o
resultado analítico concreto não parece subscrever tal pretensão. Estatísticas
de diferentes institutos locais psicanalíticos mostram acima de tudo quase as
mesmas porcentagens de sucessos e de fracassos nos tratamentos, e que a duração
média dos tratamentos parece não ser influenciada por diferenças na técnica
utilizada.
É possível com alguma relutância
admitir que para o paciente neurótico médio tais variações individuais na
técnica são sem importância. Qual é então a razão de discussões tão acaloradas
e da intolerância na comparação entre as diferentes técnicas? O ardor na defesa de métodos individuais é um
interessante exemplo do bem conhecido fenômeno social da “supervalorização
narcísica das pequenas diferenças”. Como vimos, a
principal origem da técnica individual do analista é a transferência de
emoções, quer dizer, nossa técnica, nosso comportamento analítico, tem também
um importante valor econômico, são um modo sublimado, bem adaptado e racional
de aliviar tensões, especialmente as que surgem em nós durante o tratamento dos
pacientes.
Não nos esquecemos,
obviamente, que a técnica deve em primeiro lugar atender a demandas objetivas
de nosso trabalho e não pode ser apenas um via de escoamento das emoções do
analista. Do ponto de vista da economia mental do analista, cada técnica deve
cumprir duas tarefas diferentes. A tarefa objetiva demanda que um paciente
analisado através de uma das diferentes técnicas deva aprender a conhecer sua
mente inconsciente e não a do analista. A tarefa subjetiva demanda que a
análise não seja um fardo emocional pesado demais, que a variedade técnica
individual possa garantir um suficiente escoadouro para a emoção do analista.
Uma técnica saudável e adequada deve ser então duplamente individualizada.
Isto significa que temos
motivos pessoais muito fortes para defender fervorosamente nosso próprio método
de análise. Mas, assim fazendo, não lutamos tão somente por nosso conforto, mas
pelo melhor método, tendo em vista o que está em jogo, objetiva e
subjetivamente. Retomando a metáfora de Freud, vemos que o analista de fato
deve realmente ser como a superfície bem polida de um espelho, sem, no entanto,
se portar como um ser inanimado, mas que reflete sem distorção o todo do
paciente. Quanto mais claro o paciente pode se ver em seu reflexo, melhor nossa
técnica. Uma vez obtido isto, pouco importa o quanto da personalidade do
analista é revelado através de sua atividade ou de sua
passividade, de sua severidade ou de sua indulgência, de seu método de
interpretação, etc.
Há somente um método de
psicanálise, o deixado por Freud; mas há diferentes maneiras de alcançar o
objetivo. Não existe a técnica absoluta, a ser seguida por todo analista do
mundo. Por outro lado o analista deve estar ciente de toda gratificação
emocional obtida por sua técnica, para manter um melhor controle de seu
comportamento e sobre suas convicções teóricas. Todo avanço na psicanálise
sempre requereu um controle crescente da consciência sobre a vida emocional do
investigador. Acreditamos que nossa técnica possa ser melhorada na medida de
uma capacitação crescente de adquirir cada vez mais domínio consciente sobre
nosso comportamento analítico cotidiano.