Transferência e Contratransferência

(Transference and Counter-Transference)

Alice e Michael Balint

 

 

 

The International Journal of Psycho-Analysis

Vol XX, Jul-Out 1932 Partes 3 e 4

 

 

Uma questão freqüente em discussões técnicas em psicanálise é se a transferência é trazida apenas pelo paciente ou se o analista tem alguma participação nisso. Em tais situações uma opinião é sempre enfaticamente colocada por alguns analistas. É mais ou menos assim: “no momento em que o analista influencia a situação transferencial, por outros meios que não a interpretação, ele comete um erro grave”. O propósito deste artigo é investigar se e o quanto esta opinião corresponde aos fatos.

O fenômeno da transferência se demonstra melhor quando seu objeto é inanimado, sem vida, como a porta que se bate por causa de uma raiva então presente. Com um ser vivo a situação se torna infinitamente mais complexa, porque

a.        a segunda pessoa também busca se desembaraçar de emoções incômodas transferindo-as para a primeira

b.        haverá uma reação às emoções transferidas a ele pela primeira. A situação não tem saída, a menos que um dos envolvidos se encarregue de não transferir quaisquer de seus sentimentos ao outro por um determinado período, ou seja, que se comporte por um certo tempo como um ser inanimado. Tal concepção fundamenta a comparação de Freud freqüentemente citada, de que o analista deve se comportar como a superfície bem polida de um espelho – o que é algo sem vida. A análise é também muito comparada a uma operação cirúrgica, e o comportamento do analista com a esterilização do cirurgião. De novo temos a situação de ausência do vivo, uma vez que “estéril” significa originalmente “o que não produz nem safra nem frutos”.

 

O fato de que possa haver transferência tanto para seres inanimados quanto para seres vivos esclarece parte de nosso problema, na medida em que mostra que a transferência pode ser um processo unilateral, ou seja, que pode surgir sem a participação de outra pessoa. A opinião que demanda ao analista que ele não participe, de modo algum, da formação da transferência é, sem qualquer dúvida, reforçada por este fato. Examinemos o quanto tal demanda de perfeita esterilização é satisfeita na técnica analítica real. Ou seja, verifiquemos se a “passividade” (que no contexto indica algo muito próximo do termo esterilização) do analista está de fato livre de qualquer traço de sua própria transferência.

Freud fez uma discussão ampla sobre alguns dos elementos que inevitavelmente atrapalham o ideal de esterilização e devemos considerá-los em seus detalhes. Ele enfatizou o fato de que a análise não se dá em um compartimento hermético: o analista tem nome, é homem ou mulher, tem uma idade, uma casa, etc; em um amplo sentido transferimos estes elementos de nossa personalidade para nossos pacientes. É preciso uma certa habilidade técnica para lidar com as reações provocadas por esses elementos, sempre discutidos nas análises de supervisão bem como em seminários técnicos.

Há, entretanto, muitos outros fatores pessoais que, embora sejam discutidos por analistas em círculos privados com o mais vivo interesse, nunca ou quase nunca são mencionados publicamente.

Um detalhe que o exemplifica é o “problema da almofada”. Há diversas soluções para isso:

a.        a almofada é a mesma para todos os pacientes, mas um pedaço de papel é colocado sobre ela e jogado fora no término da sessão;

b.        a almofada é a mesma mas é dado para cada paciente uma capa especial e diferente das outras, no formato e no design, e é colocada por ocasião de cada sessão.

c.        cada paciente tem sua própria almofada e deve usar apenas essa

d.        apenas uma almofada ou apenas duas ou três para todos os pacientes, que escolhem por conta própria.

Tais possibilidades podem ser multiplicadas por três, a partir da possibilidade de que o analista, o paciente ou um funcionário manipule a almofada.

São bagatelas, cuja discussão tão extensa é quase ridícula. E ainda, tais bobagens parecem ter uma certa importância na formação da situação transferencial. Por exemplo, um paciente, que por motivos alheios à sua vontade teve que mudar de analista, sonhou que o primeiro trabalhava em um banheiro bastante moderno, imaculado, equipado com higienizadores refinados, ao passo que o segundo trabalhava em um lugar antiquado, sujo e malcheiroso. O sonho na análise mostrou claramente que o paciente chegou a algumas conclusões sobre as diferenças de atitude dos analistas quanto à limpeza a partir do modo como cada qual tratava a questão da almofada. Ninguém questionaria que o curso de uma análise conduzida em uma atmosfera como a da primeira parte do sonho seria diferente na atmosfera da segunda parte. Não nos importa neste momento o problema das condições que favorecem ou não o progresso de uma análise. Queremos apenas evidenciar que diferenças na atmosfera analítica são trazidas pelo próprio analista. (Deve-se ter em mente que cada um dos dois analistas teve a mesma atitude para cada um de seus pacientes, e que a contribuição na atmosfera foi a mesma em todos os casos. Depois voltaremos a este ponto.)

Isto vale para uma série de detalhes semelhantes. Outro ponto importante é o modo como a sessão é finalizada. Alguns se levantam de suas cadeiras, dando deste modo o sinal. Outros simplesmente o anunciam com fórmulas estereotipadas; outros tentam inventar uma forma para cada sessão; alguns começam a se mexer em suas poltronas e o paciente deve inferir pelo som que o tempo acabou; outros usam relógios e alarmes, ou colocam o relógio à vista do paciente para que ele veja a passagem do tempo. Há igualmente o divã, que pode ser baixo, largo, confortável ou o contrário; a cadeira do analista, o arranjo da sala – se deve ser decorado como um escritório ou como uma sala de visita, ou se deve ficar sem mobiliário algum, exceto pelo divã e a poltrona – o método de iluminação da sala, etc.

Os elementos citados são elementos tangíveis do comportamento do analista. Não há nenhuma inferência extraordinária na conclusão de que muitos outros elementos de influência pessoal como estes em nossa intangível atitude analítica como tal. Por exemplo, alguns analista são parcimoniosos na interpretação, e dão alguma apenas quando sua justeza é praticamente certa; outros são mais generosos, mesmo com o risco de não estarem todas corretas. Alguns não encorajam a fala de pacientes silenciosos, outros o fazem com freqüência, e assim por diante.

Temos ainda o problema, bastante delicado e complexo, da interpretação: interpretar o que, quando e como. É notório que os defensores de diferentes métodos de interpretação, bem como seus críticos, estão inclinados a pensar que apenas sua técnica é correta, e consideram que as outras são erradas ou danosas, o que provoca uma suspeita de que algum elemento pessoal tome parte na avaliação dos vários modos de resolver o problema, uma vez que diferenças observadas nos resultados não correspondem à importância dada à questão, conforme apontado por Edward Glover no Congresso de Paris em 1938.

Nos últimos quinze anos diversos procedimentos foram sugeridos. Vamos citá-los e para cada um deles citar a crítica correspondente:

1.        O comportamento característico do paciente deveria ser interpretado logo, bem no início do tratamento, até mesmo na primeira sessão,e isso deve ser reiterado repetidamente. Outra opinião afirma que tal procedimento propicia uma resistência desnecessária no paciente.

2.        Acima de todo e qualquer significado, aquele que se refere à situação analítica, à transferência, deve ser interpretado. A opinião contrária diz que a trilha para as situações infantis deve ser seguida primeiro.

3.        Uma interpretação profunda deve ser dada logo que possível: quanto mais cedo a interpretação maior sua eficácia; outros advertem a este respeito quanto à necessidade de haver evidências suficientes, que tornem uma interpretação como esta inquestionável para pacientes resistentes.

4.        Mecanismos defensivos devem ser primeiro interpretados, a despeito do material infantil, mesmo que este seja muito evidente; outros sustentam que ambos devem ser interpretados concomitantemente, etc.

Mas além dessas grandes diferenças, nuances muito finas, presentes na formulação de uma interpretação ou mesmo em alguma formulação mais indiferente, a escolha de um sinônimo entre outros, a acentuação ou não de certas palavras, e mesmo sua entonação e sua cadência, são naturalmente diferentes de analista apara analista. O melhor argumento para a presença de algo pessoal em tudo isso é algo que analistas supervisores freqüentemente dizem: “o que você disse ao paciente estava correto, mas eu o teria dito com outras palavras e certamente em outro tom”.

Em adição a estas variações na técnica que caracterizam a atitude geral do analista em relação a todo os seus pacientes, há aqueles que emergem de nossa adaptação consciente ao que um caso requer, em particular. Com uma criança, por exemplo, devemos nos comportar de modo diferente que com um adulto; é prática comum chamar uma criança por seu primeiro nome, bem como permitir que ela também o faça conosco; a ela é permitido e mesmo encorajado brincar durante a sessão; ela poderá nos tocar, algumas vezes de modo suave, às vezes de modo agressivo, etc, etc. É quase o mesmo com os psicóticos. A semelhança entre a análise de crianças e a análise de psicóticos foi descrita e enfatizada tantas vezes que se tornou lugar comum.

É evidente que cada paciente requer um tratamento próprio, diferente, e que as diversas análises de um mesmo analista diferem entre si. Mesmo assim, é inegável que há muitos modos diversos e individuais de analisar diferentes atmosferas analíticas, quer dizer, mantidas e criadas por técnicas e particularidades de um determinado analista. Naturalmente certos traços psicológicos seguramente acompanham alguns dos detalhes materiais, tangíveis, descritos acima.

Retomando a metáfora do espelho, não é surpreendente que haja tantos modos individuais de analisar? E não é mais surpreendente ainda que no caso de analistas didatas, todos os seus pupilos, no início de seu trabalho “independente”, sejam predispostos a usarem seus métodos, da forma da interpretação à decoração da sala, no anúncio do término da sessão, dando-nos uma prova convincente de que a verdadeira fonte destes traços recorrentes é a transferência, descrita eufemisticamente, no caso do analista em situação de análise, como contratransferência? O perigo de ficar emperrado em tal transferência é um dos argumentos em favor da demanda de que parte da análise de supervisão seja conduzida por outro analista (melhor ainda se por outros), e não apenas pelo analista didata.

A partir deste ponto de vista a situação analítica é vista como o resultado de uma interação entre a transferência do paciente e a contratransferência do analista, complicada por reações suscitadas em cada um pela transferência produzida sobre si. Se for assim, e é assim, não devemos concluir que não existe um método “esterilizado” de análise e que a opinião citada no início deste artigo se baseia em um ideal jamais atingido? A crença absoluta e inicial na validade da atitude semelhante a um espelho era tão firme que sua contestação era tomada como um sinal de deserção. Hoje, e não apenas neste artigo, a própria possibilidade de tal atitude é colocada em dúvida. O fato de que estas duas posições possam ter sido concebidas, ambas apoiadas por uma grande experiência clínica, explica as freqüentes discussões sobre o tema e justifica a escrita deste artigo.

Apenas pela experiência clínica podemos chegar à solução da controvérsia. A segunda opinião nos levaria a esperar que atmosferas analíticas criadas pela personalidade do analista exerceriam uma influência decisiva sobre a situação analítica real e, consecutivamente, sobre o resultado terapêutico. Surpreendentemente não é o que parece ocorrer. Nossos pacientes, com raras exceções, se adaptam à maioria das diferentes atmosferas e avançam com sua própria transferência, quase sem se deixar perturbar pela contratransferência do analista. Isto implica em que tais técnicas são suficientemente boas para dar condições a pacientes com problemas comuns no desenvolvimento da vida emocional para que construam uma transferência favorável ao trabalho analítico. Embora defensores de uma ou outra técnica, especialmente aqueles de certos métodos particulares de interpretação, advoguem que todos os métodos, com exceção do próprio, são menos eficientes, o resultado analítico concreto não parece subscrever tal pretensão. Estatísticas de diferentes institutos locais psicanalíticos mostram acima de tudo quase as mesmas porcentagens de sucessos e de fracassos nos tratamentos, e que a duração média dos tratamentos parece não ser influenciada por diferenças na técnica utilizada.

É possível com alguma relutância admitir que para o paciente neurótico médio tais variações individuais na técnica são sem importância. Qual é então a razão de discussões tão acaloradas e da intolerância na comparação entre as diferentes técnicas?  O ardor na defesa de métodos individuais é um interessante exemplo do bem conhecido fenômeno social da “supervalorização narcísica das pequenas diferenças”. Como vimos, a principal origem da técnica individual do analista é a transferência de emoções, quer dizer, nossa técnica, nosso comportamento analítico, tem também um importante valor econômico, são um modo sublimado, bem adaptado e racional de aliviar tensões, especialmente as que surgem em nós durante o tratamento dos pacientes.

Não nos esquecemos, obviamente, que a técnica deve em primeiro lugar atender a demandas objetivas de nosso trabalho e não pode ser apenas um via de escoamento das emoções do analista. Do ponto de vista da economia mental do analista, cada técnica deve cumprir duas tarefas diferentes. A tarefa objetiva demanda que um paciente analisado através de uma das diferentes técnicas deva aprender a conhecer sua mente inconsciente e não a do analista. A tarefa subjetiva demanda que a análise não seja um fardo emocional pesado demais, que a variedade técnica individual possa garantir um suficiente escoadouro para a emoção do analista. Uma técnica saudável e adequada deve ser então duplamente individualizada.

Isto significa que temos motivos pessoais muito fortes para defender fervorosamente nosso próprio método de análise. Mas, assim fazendo, não lutamos tão somente por nosso conforto, mas pelo melhor método, tendo em vista o que está em jogo, objetiva e subjetivamente. Retomando a metáfora de Freud, vemos que o analista de fato deve realmente ser como a superfície bem polida de um espelho, sem, no entanto, se portar como um ser inanimado, mas que reflete sem distorção o todo do paciente. Quanto mais claro o paciente pode se ver em seu reflexo, melhor nossa técnica. Uma vez obtido isto, pouco importa o quanto da personalidade do analista é revelado através de sua atividade ou de sua passividade, de sua severidade ou de sua indulgência, de seu método de interpretação, etc.

Há somente um método de psicanálise, o deixado por Freud; mas há diferentes maneiras de alcançar o objetivo. Não existe a técnica absoluta, a ser seguida por todo analista do mundo. Por outro lado o analista deve estar ciente de toda gratificação emocional obtida por sua técnica, para manter um melhor controle de seu comportamento e sobre suas convicções teóricas. Todo avanço na psicanálise sempre requereu um controle crescente da consciência sobre a vida emocional do investigador. Acreditamos que nossa técnica possa ser melhorada na medida de uma capacitação crescente de adquirir cada vez mais domínio consciente sobre nosso comportamento analítico cotidiano.