A Feminilidade como “Mascarada”[*]

Joan Rivière

 

Tradução de Carlos Serafim Martinez

Revisão de Marta Togni Ferreira.

 

Todas as direções às quais a pesquisa psicanalítica se dirigiu parecem ter atraído o interesse de Ernest Jones, e neste tempo em que aos poucos entrou em questão o desenvolvimento sexual da mulher, ele é naturalmente um dos que mais podem aí contribuir. Como sempre, ilumina o material com seu dom pessoal de tornar mais claro o conhecimento que já possuímos e de também contribuir com suas próprias observações mais recentes.

Em seu artigo, “O Desenvolvimento Inicial da Sexualidade Feminina”[1], esquematiza sucintamente os tipos de desenvolvimento feminino, que divide primeiramente em heterossexual e homossexual, para depois dividir o último em dois subgrupos. Ele reconhece a natureza excessivamente esquemática de sua classificação e postula um número de tipos intermediários. É com um destes tipos intermediários que estou concernida. Encontramos diariamente tipos tanto de homens quanto de mulheres que mostram fortes características do outro sexo, e cujo desenvolvimento é principalmente heterossexual. Avalia-se que isto represente a bissexualidade inerente a todos. A análise mostrou que a apresentação de traços de caráter heterossexual ou homossexual, ou de manifestações sexuais, é o resultado final de conflitos e não necessariamente uma evidência de alguma tendência fundamental ou radical. A diferença entre o desenvolvimento homossexual e o heterossexual resulta de diferenças nos graus de ansiedade, com seu efeito correspondente no desenvolvimento. Ferenczi indicou uma reação semelhante no comportamento[2], a saber, o exagero da heterossexualidade do homem homossexual como defesa contra a homossexualidade.  Tentarei mostrar que as mulheres que anseiam pela masculinidade podem usar uma máscara de feminilidade para evitar a ansiedade e a retaliação temida dos homens.

É com um tipo particular de mulher intelectual que devo lidar. Não faz muito tempo, os propósitos intelectuais por parte das mulheres eram associados quase que exclusivamente a um tipo masculino de mulher, que em casos pronunciados não fizeram nenhum segredo de seu desejo ou reivindicação de ser um homem. Isto mudou. De todas as mulheres engajadas profissionalmente, seria difícil hoje dizer se predomina um estilo de vida e um caráter mais feminino ou masculino. Na universidade, em profissões científicas e nos negócios, encontramos constantemente mulheres que parecem corresponder ao padrão do desenvolvimento feminino completo. São esposas e mães excelentes, donas de casa capazes; mantêm a vida social e ajudam à cultura; não têm nenhuma falta de interesse feminino, por exemplo, em sua aparência pessoal, e quando requisitadas conseguem ainda encontrar tempo para atuar como mães-substitutas em um grande círculo de parentes e amigos. Ao mesmo tempo cumprem com os deveres de sua profissão, ao menos tanto quanto o homem comum. É realmente um enigma classificar psicologicamente este tipo.

Há um certo tempo, no curso de uma análise de uma mulher deste tipo, fiz algumas descobertas interessantes. A paciente correspondia a cada detalhe da descrição acima. As excelentes relações com seu marido incluíam uma ligação afetiva muito íntima com satisfação sexual freqüente e plena. Orgulhava-se de sua eficiência como dona de casa. Sempre fora profissionalmente bem sucedida em sua vida. Era altamente adaptada à realidade e hábil em manter relações boas e apropriadas com quase todos de seu contato.

Determinadas reações em sua vida mostraram, entretanto, que sua estabilidade não era tão impecável quanto parecia; uma destas reações o ilustra. Era uma mulher americana engajada em um trabalho com propaganda, que consistia principalmente em falar e escrever. Sempre em sua vida experimentara certo grau de ansiedade, às vezes muito severo, após cada atuação em público, tal como falar para uma audiência. Apesar de sua habilidade e sucesso inquestionáveis, tanto no aspecto intelectual quanto prático e de sua capacidade de lidar com o público, de debater, etc., ficava agitada e apreensiva depois, à noite, com receio de ter feito alguma coisa imprópria, e obcecada por uma necessidade de reasseguramento. Tal necessidade de reasseguramento levou-a compulsivamente em ocasiões como essa, a procurar alguma atenção ou observações elogiosas de algum homem ou homens ao término de sua participação ou condução de alguma atividade; e logo se tornou evidente que os homens escolhidos para este propósito sempre eram figuras paternas sem a menor dúvida, embora frequentemente, na realidade, não fossem pessoas cujo julgamento de seu desempenho de fato importasse. Dois tipos de reasseguramento destas figuras paternas eram evidentes: reasseguramento direto, sob a forma de elogios sobre seu desempenho e, mais importante, um reasseguramento indireto na busca do interesse sexual destes homens. Dizendo abertamente, a análise de seu comportamento após sua performance mostrou suas tentativas, mais ou menos veladas, de obter ganhos sexuais deste tipo específico de homem por flerte e coqueteria. A extraordinária disparidade desta atitude em seguida a outra, bastante impessoal e objetiva durante seu desempenho intelectual, era um problema. A análise mostrou que a situação edípica de rivalidade com a mãe era extremamente aguda e nunca resolvida satisfatoriamente. Devo retornar a isto depois, mas ao lado do conflito com a mãe, a rivalidade com o pai também era muito grande. Seu trabalho intelectual, dirigido ao uso da fala e da escrita, foi baseado em uma evidente identificação com seu pai, um homem inicialmente letrado que mais tarde voltou-se para a política; foi característico de sua adolescência uma revolta consciente contra ele, com rivalidade e desprezo. Sonhos e fantasias desta natureza, castrar o marido, foram freqüentemente descobertos na análise. Tinha sentimentos completamente conscientes de rivalidade e reivindicações de superioridade às muitas das figuras paternas a quem solicitava a corte, após suas próprias apresentações! Ressentia-se amargamente com qualquer suposição de que não era igual a eles, e (intimamente) rejeitava a idéia de assujeitar-se a seu julgamento ou crítica. Neste ponto ela corresponde a um tipo no esquema de Ernest Jones: ao primeiro grupo das mulheres homossexuais que declaram falta de interesse em outras mulheres, e ao mesmo tempo desejam reconhecimento de sua masculinidade pelos homens e reivindicam ser equivalentes deles, ou seja, serem homens elas mesmas. Seu rancor, entretanto, não era explicitado; publicamente reconhecia sua pertença ao gênero feminino.

A análise revelava então que a explicação do seu olhar sedutor compulsivo e de sua coqueteria - dos quais ela mesma mal se apercebia até que a análise os tornasse manifestos – assim se explicava: era uma tentativa inconsciente de barrar a ansiedade consecutiva a seu trabalho intelectual, por prever a represália das figuras paternas. A exibição em público de sua capacidade intelectual, em si mesma empreendida com sucesso, significava sua própria exibição na posse do pênis do pai, tendo-o castrado. Terminada a exibição, era tomada pelo pavor da retribuição que o pai então exigiria. Obviamente isso estava a um passo da vingança pelo trabalho de se oferecer sexualmente a ele. Esta fantasia parece ter sido bastante comum em sua infância e juventude, nos Estados do Sul da América; se um negro viesse a atacá-la, planejava defender-se fazendo com que ele a beijasse e fizesse amor com ela (de modo que pudesse finalmente entrega-lo à justiça). Havia ainda uma determinante adicional ao comportamento obsessivo. Em um sonho de conteúdo similar a esta fantasia infantil, estava em casa aterrorizada e sozinha; então um negro entra e se depara com ela lavando roupa, de mangas arregaçadas e braços expostos. Resiste a ele, com a intenção secreta de atrai-lo sexualmente, e ele começa a admirar e acariciar seus braços e também seus seios. O sentido era de que matara o pai e a mãe e, com isso, ganhou tudo para si (sozinha na casa), ficou estarrecida com a conseqüência (previsão de tiros de revolver pela janela), e sua defesa foi executar tarefas servis (lavar roupa) para limpar a sujeira e o suor, a culpa e o sangue de sua ação. Com o “disfarce” de ser apenas uma mulher castrada, de tal forma que sob esta aparência, o homem não encontrou nenhum objeto roubado com ela, que para recuperar a atacaria, e, além disso, ela se tornou atraente enquanto objeto de amor. Assim o alvo da compulsão não era apenas garantir o reasseguramento despertando sentimentos amigáveis no homem; visava em particular certificar-se de estar segura, mascarada como livre de culpa e inocente. Era uma inversão compulsiva de seu desempenho intelectual; e os dois juntos formavam a dupla ação de um ato obsessivo, bem como em sua vida que na totalidade consistia alternadamente em atividades masculinas e femininas.

Antes, em outro sonho, pessoas punham máscaras sobre o rosto para evitar desastres. Um destes sonhos era de que uma torre alta em uma colina era empurrada e desabava sobre os habitantes de uma vila abaixo, mas as pessoas colocavam máscaras e escapavam sem ferimentos!

A feminilidade poderia conseqüentemente ser algo que se porta e que se usa como uma máscara, tanto para esconder a posse da masculinidade quanto para evitar represálias esperadas no caso de que tal posse venha a se tornar conhecida, como um ladrão que esvazia os bolsos e pede para ser revistado como prova de que não detém bens roubados. O leitor pode agora perguntar como eu defino feminilidade e de onde eu extraio a linha entre a feminilidade genuína e “a mascarada”. Minha sugestão é, entretanto, que não há tal diferença, radical ou superficial, elas são a mesma coisa. A capacidade para a feminilidade estava lá nesta mulher - e pode ser mesmo dito que existe na mulher totalmente homossexual - mas por causa de seus conflitos não representava seu desenvolvimento principal e seu uso era mais como um dispositivo de evitação da ansiedade do que uma modalidade primária de satisfação sexual.

Darei alguns breves detalhes para ilustrá-lo. Ela casou-se tarde, aos 29 anos; devido a uma grande ansiedade quanto à defloração, fez com que seu hímen fosse esticado ou rompido antes do casamento por uma médica. Antes de seu casamento sua atitude quanto ao ato sexual consistia em uma decisão de obter e experimentar o sabor e o prazer que sabia que algumas mulheres encontravam, bem como o orgasmo. Tinha receio da impotência, exatamente da mesma maneira que um homem. Em parte tratava-se de uma determinação em ultrapassar determinadas figuras maternas, que eram frígidas, mas em níveis mais profundos era uma determinação de não ser superada pelo homem[3]. De fato, seu prazer sexual era pleno e freqüente, com orgasmo completo; mas surgiu o fato de que a satisfação obtida era da natureza de um reasseguramento e restituição de algo perdido, e não uma apreciação pura e simplesmente. O amor do homem devolvia-lhe a auto-estima. Durante a análise, quando impulsos castradores hostis para com o marido estavam se tornando claros, o desejo de relações sexuais diminuiu muito, e ficou por alguns períodos relativamente frígida. Descolava-se a máscara da feminilidade, e ela se revelava como castrada (sem vida, incapaz de sentir prazer) ou com desejo de castrar (conseqüentemente receosa ao receber o pênis ou ser grata pela satisfação). Certa vez, durante um período em que seu marido teve um caso com uma outra mulher, percebeu uma identificação muito intensa com ele em relação à mulher rival. É espantoso ela nunca ter tido nenhuma experiência homossexual (antes da puberdade, com uma irmã mais nova); mas na análise ficou claro que esta falta foi compensada por sonhos homossexuais freqüentes, com intenso orgasmo.

Podemos observar no dia a dia curiosas formas assumidas pela máscara da feminilidade. Conheço uma dona de casa bastante hábil, capaz ela mesma de lidar com tarefas tipicamente masculinas. Mas se esta mulher chamar, por exemplo, um construtor ou um carpinteiro, esconde deles compulsivamente todo seu conhecimento técnico, mostra admiração ao profissional e faz sugestões de modo inocente e simplório, como se fossem palpites felizes. Confessou-me que mesmo com o açougueiro e o padeiro, a quem na realidade governa com mão de ferro, não consegue colocar-se em uma atitude que seja sincera; sente-se atuando em uma peça teatral, com o semblante de uma mulher inculta, tola e confusa, para no final chegar onde quer. Em todas as outras relações de sua vida, esta mulher é uma senhora culta, graciosa, competente e bem informada, e mantém o domínio em seus amores, com seu modo racional, sensível, sem subterfúgios. Esta mulher, que hoje tem 50 anos, me diz que quando era mais nova sentia muita ansiedade em transações com homens tais como porteiros, garçons, taxistas, vendedores, ou com outras figuras paternas potencialmente hostis, tais como médicos construtores e advogados; além disso, freqüentemente discutiu com tais homens e teve altercações com eles, acusando-os de trapaça e assim por diante.

Outro caso corriqueiro é o da mulher, esposa e mãe inteligente, que leciona na universidade algum assunto obscuro que raramente atrai mulheres. Ao expor publicamente algum assunto, não aos estudantes, mas aos colegas, escolhe roupas decididamente femininas. Seu comportamento nestas ocasiões é também bastante impróprio: torna-se irreverente e brincalhona, a ponto de provocar comentários e censuras. É compelida a mostrar sua masculinidade aos homens como um jogo, como algo enganoso, como piada. Não consegue tratar a si mesma e a seu tema com seriedade, não pode se ver em termos iguais aos dos homens; além disso, a atitude de irreverência permite extravasar parte de seu sadismo, o que confere um caráter ofensivo à ação.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados e encontrei um mecanismo similar na análise de homens homossexuais manifestos. Em um destes, com inibição e ansiedade severas, as atividades homossexuais ocuparam um lugar secundário, e a principal fonte de satisfação sexual vinha da masturbação sob circunstâncias especiais, a saber, olhar-se no espelho vestido de uma maneira particular. A excitação se produzia com a visão de seu cabelo repartido ao meio, usando gravata-borboleta. Estes extraordinários “fetiches” revelaram ser a representação de um disfarce dele como sua irmã; o cabelo e a gravata foram tomados dela. Sua atitude consciente era um desejo de ser uma mulher, mas as relações manifestas com homens nunca haviam sido estáveis. Inconscientemente a relação homossexual provou ser inteiramente sádica e baseada na rivalidade masculina. Podia se entregar a fantasias sádicas e de “posse de um pênis” somente quando estivesse seguro contra a ansiedade através do espelho, em que se via a salvo, “disfarçado” de mulher.

Retornando ao caso que inicialmente descrevi, sob sua heterossexualidade aparentemente satisfatória é evidente que esta mulher mostra sinais bem conhecidos do complexo de castração. Horney foi a primeira entre outros a indicar as fontes deste complexo na situação edípica; minha opinião é que o fato de que se pode portar a feminilidade como uma máscara traz uma contribuição adicional à análise do desenvolvimento feminino. Tendo isto em vista, esquematizarei agora o desenvolvimento inicial da libido neste caso.

Mas devo antes disto fazer algumas indicações de suas relações com as mulheres. Ela estava consciente da rivalidade com as mulheres de boa aparência ou com pretensões intelectuais. Era consciente dos lampejos de ódio diante de quase toda mulher com quem tivesse muito a ver, mas nas relações próximas ou permanentes, não era incapaz de estabelecer uma posição bastante satisfatória com elas. Inconscientemente ela o fazia para ser, de algum modo, superior a elas (suas relações com seus inferiores eram uniformemente excelentes). Sua eficiência como dona de casa se devia a isso principalmente. Com isso, ao superar a mãe, ganhou sua aprovação e provou sua superioridade entre mulheres femininas rivais. Indubitavelmente suas realizações intelectuais tiveram em parte o mesmo objetivo. Também provavam sua superioridade em relação à mãe; era provável que sua rivalidade com mulheres fosse mais aguda no campo intelectual que na questão da beleza, uma vez que podia refugiar-se em sua superioridade cerebral se a beleza estivesse em jogo.

A análise mostrou que a origem de todas estas reações, tanto aos homens quanto às mulheres, reside na reação aos pais durante a fase sádica oral (morder). Estas reações tomaram a forma de fantasias sistematizadas por Melanie Klein[4] em seu trabalho no Congresso de 1927. Como conseqüência do desapontamento ou da frustração no sugar ou no desmame, em conjunção com experiências da cena primária, que é interpretada em termos orais, desenvolve-se um sadismo extremamente intenso contra os pais.[5] A isso se segue o desejo de morder fora o bico do seio, e desejos de destruição, de penetrar e estripar a mãe e devora-la, bem como seus conteúdos. Estes conteúdos incluem o pênis do pai, suas fezes e suas crianças – tudo aquilo que ela possui, todos os seus objetos de amor, imaginados dentro de seu corpo.[6] O desejo de morder o bico do seio é deslocado também, como nós sabemos, para o desejo de castrar o pai mordendo fora seu pênis. Pai e mãe são rivais neste estágio, ambos possuem objetos desejados; o sadismo é dirigido a ambos e há o temor da vingança de ambos. Mas, para as meninas, como sempre, a mãe é mais odiada, e conseqüentemente mais temida. Ela executará a punição apropriada ao crime: a destruição do corpo da menina, de sua beleza, de suas crianças, sua capacidade de gerar filhos, mutilação, devoração, tortura e assassinato. Nesta horrível situação a única segurança da menina estará em acalmar a mãe e em expiar seu crime. Deve deixar a rivalidade com a mãe e, se puder, esforçar-se em restaurar aquilo que roubou dela. Como sabemos, identifica-se com o pai; e usa a masculinidade então obtida colocando-a a serviço da mãe. Assim, ao transformar-se no pai e tomar seu lugar, pode “restituí-lo” à mãe. Esta posição era muito evidente em diversas situações típicas da vida de minha paciente. Deleitava-se em usar sua grande praticidade para beneficiar ou ajudar mulheres mais fracas e mais desamparadas, e manter com sucesso esta atitude desde que a rivalidade não emergisse em demasia. Mas esta restituição só poderia se realizar de uma determinada forma; deveria obtê-la como uma retribuição generosa, movida por gratidão e “reconhecimento”. Ela supunha que desejava o reconhecimento como retribuição a seus sacrifícios; mais inconscientemente a reivindicação era de reconhecimento de sua supremacia em ter o pênis a ser devolvido. Se sua supremacia não fosse reconhecida, a rivalidade tornava-se outra vez aguda; se a gratidão e o reconhecimento fossem negaceados, seu sadismo irrompia com toda potência e ela se via sujeita (interiormente) a paroxismos de fúria sádico-oral, exatamente como uma criança raivosa.

Quanto ao pai, o ressentimento contra ele se erigiu de duas maneiras: (1) durante a cena primária ele ficou com o leite da mãe, etc., que faltou à criança; (2) ao mesmo tempo deu à mãe o pênis ou as crianças ao invés de dar a ela. Tudo o que ele tinha ou pegou deveria ser-lhe, portanto, tomado por ela; foi castrado e reduzido a nada, do mesmo modo que a mãe. Embora menos intenso que pela mãe, o medo dela por ele persistiu em parte porque a vingança pela morte e destruição da mãe era esperada. Deste modo era igualmente necessário apaziguá-lo e acalmá-lo. Isto foi possível com uma máscara de aparência feminina, feita para ele, mostrando-lhe inocência e “amor”. É significativo que esta máscara de mulher, embora transparente a outras mulheres, funcionasse bem com homens, e servisse muito bem à sua finalidade. Muitos homens eram atraídos desta maneira, e lhe davam o reasseguramento e mostras de seu apreço. Um exame mais detido mostrava que estes homens eram do tipo que temem a mulher ultrafeminina. Preferiam mulheres que tivessem elas mesmas atributos masculinos, a cujos apelos ficassem menos vulneráveis.

De acordo com a cena primária, o talismã que os pais possuem e que falta a ela é o pênis do pai; daí sua raiva, e também seus temores e seu desamparo. [7] Ao privar o pai do pênis e possui-lo ela mesma, obtém o talismã - a espada invencível, “o órgão do sadismo”; ele fica sem poderes e indefeso (seu marido delicado), embora ela ainda se guarde do ataque com o uso, para ele, da máscara feminina da subserviência. E, por trás das aparências, ela mesma exerce muitas de suas funções masculinas – “por ele” - (sua praticidade). Do mesmo modo é com a mãe: ao roubar-lhe o pênis e destruí-la, faz com que ela fique em uma inferioridade vergonhosa, triunfa sobre ela, mas de novo em segredo; externamente reconhece e admira as virtudes das mulheres “femininas”. Mas a tarefa de se resguardar contra a retaliação da mulher é mais difícil que com o homem; nunca eram suficientes seus esforços em aplacar e reparar, com a restauração e uso do pênis a serviço da mãe; este expediente foi usado até a exaustão, exaustão do expediente, exaustão por vezes dela mesma.

Pareceu, então, que esta mulher se salvou de uma ansiedade insuportável, resultante de seu furor sádico contra os pais ao criar na fantasia uma situação em que era um ser supremo, a quem nenhum dano poderia ser causado. A essência da fantasia era sua supremacia sobre os objetos parentais; seu sadismo era satisfeito desse modo, triunfava sobre eles. Através desta mesma supremacia conseguia também se desviar de vinganças; os meios adotados para tanto eram as formações reativas e a ocultação de sua hostilidade. Assim poderia satisfazer os impulsos do id, seu ego narcísico e seu superego ao mesmo tempo. A fantasia era a mola propulsora da totalidade de sua vida e de seu caráter e chegou muito próximo de sua perfeita concretização. Mas seu ponto fraco era o caráter megalomaníaco, visível em todos os disfarces na necessidade de supremacia. Quando esta supremacia foi seriamente perturbada durante a análise, caiu em um abismo de ansiedade, raiva e em uma miserável depressão; antes da análise caía doente.

Quero dizer uma palavra sobre o tipo de Ernest Jones de mulher homossexual cujo alvo é obter “o reconhecimento” de sua masculinidade pelos homens. A pergunta que se coloca é se a necessidade de reconhecimento neste caso tem ligação com o mecanismo de uma mesma necessidade no tipo descrito, mas diverso na forma de agir (reconhecimento por serviços prestados). Em meu caso o pedido de reconhecimento direto da posse do pênis não foi reivindicado abertamente e sim para as formações reativas, embora elas fossem possíveis apenas com a posse do pênis. De modo então indireto, o reconhecimento não era reivindicado, nem mais nem menos, senão para o pênis. Este desvio se deveu à apreensão quanto à detecção de um pênis, em outras palavras de que fosse descoberto. Percebe-se que se houvesse menos ansiedade, minha paciente reivindicaria abertamente o reconhecimento pelos homens de sua posse de um pênis, e intimamente, como nos casos de Ernest Jones, ela se ressentia amargamente pela falta de um reconhecimento direto. Fica evidente que nos outros casos o sadismo primário obtém mais satisfação; o pai não apenas é castrado como também deve reconhecer sua derrota. Mas como estas mulheres evitam então a ansiedade? Com respeito à mãe, isto é feito com a negação de sua existência. A julgar por indicações de análises que conduzo, concluo em primeiro lugar que, como Jones dá a entender, esta reivindicação é simplesmente um deslocamento da reivindicação sádica original de que o objeto desejado, bico do seio, leite, pênis, deva ser imediatamente subjugado; em segundo lugar, a necessidade de reconhecimento é em sua maior parte uma necessidade de perdão. Com a mãe, relegada ao limbo, nenhuma relação é possível. Sua existência parece ser negada, embora seja na verdade demasiado temida. Assim a culpa pelo triunfo sobre ambos pode ser absolvida somente pelo pai; se ele sancionar e reconhecer sua posse do pênis, ela está segura. Ao dar seu reconhecimento, dá-lhe o pênis, e a ela em preferência à mãe; então ela o possui, pode possuí-lo, e está tudo certo. O “reconhecimento” sempre é em parte reasseguramento, sanção, amor; e faz dela, uma vez mais, um ser supremo. Por pouco que ele se aperceba disso, para ela, o homem admitiu sua derrota. Neste contexto, portanto, a relação fantasiada de tal mulher ao pai é similar ao Édipo normal; a diferença está no sadismo como base. Ela pode matar a mãe, mas com isso é excluída de apreciar muito do que a mãe teve, e o que obtém do pai é pela via da extorsão.

 

Estas conclusões compelem uma vez mais a enfrentar a pergunta: qual é a natureza essencial da feminilidade inteiramente desenvolvida? O que é “das ewig Weibliche”? [a eterna feminilidade]. A concepção da feminilidade como uma máscara, sob a qual o homem adivinha algum perigo oculto, lança alguma luz no enigma. A feminilidade heterossexual inteiramente desenvolvida é fundada, como Helene Deutsch e Ernest Jones indicaram, no estágio oral de sucção. Nele, a satisfação de ordem primária é unicamente de receber (o seio, o leite) o pênis, o sêmen, a criança do pai. O restante fica na dependência das formações reativas. A aceitação da “castração”, a humildade, a admiração dos homens vêm em parte da supervalorização do objeto no plano oral da sucção; mas principalmente da renúncia (com menor intensidade) de desejos sádicos de castração - derivados do nível oral posterior (de morder). “Não preciso pegar, nem mesmo pedir: deve me ser dado”. A capacidade para o sacrifício, devoção e auto-abnegação são expressões dos esforços em restaurar, seja para a mãe ou para figuras paternas, o que lhes foi retirado. Equivale ao que Rank chamou de um “seguro narcisista”, do mais alto valor. Fica esclarecido como a realização da heterossexualidade plena coincide com a da genitalidade. Verificamos uma vez mais que, como primeiro indicou Abraham, que a genitalidade implica em atingir um estágio posterior à ambivalência. Tanto a mulher “normal” quanto a homossexual deseja possuir o pênis do pai e se rebelar contra a frustração (ou a castração); mas uma das diferenças está entre o grau de sadismo e o poder tanto de lidar com ele quanto com a ansiedade a que ele dá origem, nos dois tipos de mulheres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas:



[*] International Journal of Psychoanalysis

Vol X, 1929 Pp 303-313

 



[1] E.Jones, “O Desenvolvimento Inicial da Sexualidade Feminina, International Journal of Psychoanalysis, Vol. 8 (192?).

[2] S.Ferenczi, “A Nosologia da Homossexualidade Masculina, Contribuições à Psicanálise, 1916.

[3] Encontrei tal atitude em diversas analisandas mulheres, bem como a auto-prescrição da defloração em quase todas elas (cinco casos). À luz do trabalho de Freud “O Tabu da Virgindade”, este ato sintomático é instrutivo.

[4] M. Klein, “Estágios Iniciais do Conflito Edípico”, International Journal of Psychoanalysis, Vol. 9 (1928)

[5] E.Jones, op. cit. p 469, considera uma intensificação do estágio oral-sádico como a característica central do desenvolvimento homossexual nas mulheres.

[6] Como não era essencial a meu argumento, omiti toda a referência ao desenvolvimento posterior da relação às crianças.

[7] . cf.M.N.Searl, “Situações de perigo no Ego Imature”, Congresso de Oxford, 1929