O Esquema Óptico
no Seminário 10
Vamos partir do esquema óptico pelo lado mais bruto, o de sua montagem, a organização de seu modelo, como é o esquema. Ele se articula em três tempos, o primeiro que explicita o que Lacan chama de simbólico, imaginário e real, em termos puramente formais. É a primeira figura que não coloca os problemas de um sujeito que não se percebe diretamente. Nele temos a junção de uma imagem real com um objeto real para uma situação visível num cone. A situação se organiza para um lugar, tornando o espaço dividido, onde há um lugar para que um sujeito veja, e outro onde isso não se dá.
O segundo modelo coloca a situação humana, de alienação a uma imagem, única possibilidade de apreensão de si mesmo por um sujeito que está próximo demais do conjunto da imagem real com o objeto real, para ter acesso a uma apreensão direta. Esta imagem é furtada da imagem do outro, enquanto forma ereta capaz de animar o desejo na máscara do Outro. Primeiros elementos: o espelho plano aqui deve ser concebido como um espelho sem aço, pois o sujeito não faz uma separação nítida entre seu corpo e o corpo do outro. O semelhante faz corpo em nós e sempre fará. A situação de transitivismo na infância e a situação interpretada por Freud, de que Dora ao acusar o pai fazia auto-acusações de mesmo conteúdo são bons exemplos disso. (A teorização de Freud da reversibilidade da libido encontraria melhor apoio que na metáfora dos pseudópodes.) Não se esquecer que o vaso é chamado por Lacan de continente narcísico da libido.
No esquema temos como i’(a) algo que só é visto no campo do Outro, e é tomado como um conjunto unitário, embora seja a junção, no lado do sujeito do real de suas pulsões (as flores) com a imagem do continente, aproveitada na forma do semelhante cujo poder de suportar esta função advém de sua forma fálica. O Sujeito $ deste lado do espelho, concernido demais, excessivamente perto demais do espelho esférico para ter acesso direto ao conjunto, encontra uma representação imaginária que
§ ao mesmo tempo o representa, o insere no campo do Outro e de seu desejo,
§ ao mesmo tempo o aliena, por instaurar uma mitologia da coerência e da dualidade dentro-fora, externo-interno, que não pode representa-lo verdadeiramente.
Neste sentido o espelho A é representado como baixo demais para alcançar este S, deixando o domínio inicial da situação para um exercício imaginário com o desejo.
A terceira figura simboliza uma primeira concepção da operação analítica: o espelho deitado por terra pelo analista arrasta o Sujeito para uma posição onde ele se põe ao lado de I. Isso serve para indicar duas coisas:
§ que é preciso que o Sujeito perceba o conjunto dos significantes que validam a imagem como capaz de animar o desejo, significantes de que é efeito, e que nesse encontro subsista, sem se apagar.
§ que para isto é necessário que ele resista aos efeitos afanisantes do significante S1, a que ele responderia com uma imagem. Lacan diz na Observação ao Relatório de Daniel Lagache que é preciso que o sujeito veja a imagem narcísica, mas em condições que lhe permitam reconhecer que ela lhe usurpa o lugar.
Podemos entrar neste ponto numa distinção colocada no seminário 10. Esta operação do analista, indicada no relatório é uma operação que se dá eminentemente no simbólico. Na lição dois Lacan diz que é um objeto que deseja na fórmula hegeliana do desejo, e que este objeto é a consciência. Selbstbewusstsein, a consciência de si. Isso é interessante, se pensarmos na idéia que o vaso traz de esfera, de topologia de interno-externo, como já foi dito. Como diz Ricardo Pacheco no artigo da última Literal: “é pela via da imagem que o sujeito se instaura nessa função de desejo, o que está indicado no dizer de Lacan de que o sujeito se faz quadro. Lacan observa aí um correlato da consciência com a representação”.Mas nisto, como ele nos lembra, há o apagamento do sujeito. Nesta lição 2 ele diz que o desejo é um desejo enquanto imagem, imagem suporte deste desejo e temos aqui um passo importante: “o fantasma não hesito em recobrir por esta notação da imagem especular”.
A fórmula do desejo conforme explicitada no seminário 5 define um campo assim
escrito:
. Vocês vão encontrar
estes mesmo termos no grafo do desejo e eles definem os dois pisos, entre a
identificação narcísica e a identificação no fantasma. Quando Lacan diz “o
fantasma não hesito em recobrir por esta notação da imagem especular” ele está
dizendo que passa-se de uma a outra, que existe um acesso de uma à outra. Ou
seja, de que o objeto insiste na imagem. Ou “o real insiste no irreal”. Isso
não se prova apenas algebricamente, como esta fórmula escreve. Isto se prova
topologicamente, como pretendo demonstrar, no final da exposição.
Algumas
coisas já começam a ser discernidas nisso: primeiro: que a operação analítica
neste seminário se é uma operação simbólica, é uma operação que inclui e dá
primazia a um resto da operação significante. Então, para Lacan, a coisa não se
resolve no plano do simbólico, não do modo como ele indicava ao colocar o $ em
condição de se confrontar com a ordenação advinda de I, que autoriza a imagem
narcísica como imagem fálica. Há uma operação com o objeto, ou a partir dele.
Quando ele diz que não podemos fazer igual ao que é criticado nos outros
teóricos, que é excluir o analista de sua operação, ele nos empurra em direção
ao desejo do analista, desejo que coloca a questão da angústia, que coloca a
angústia, única tradução subjetiva possível do abjeto.
Há uma simplificação no uso de simbólico e imaginário por conta disso. Então simbólico neste esquema passa a ser simplesmente a distribuição de lugares, aqui e lá, o lado do sujeito e do Outro, nas divisões e também no esquema, onde temos de um lado o sujeito e do outro as imagens que o validam segundo os ideais. Imaginário vale principalmente pelo seu eixo ereto, sua proeminência. No seminário 4 sobre a primazia do falo como elemento privilegiado Lacan nos diz: seu privilégio vem de sua proeminência.
Então na lição III a figura 6 fica assim:

Essa simplificação do esquema explica a displicência com que certos elementos são colocados em outras figuras, mas acho importante indicar sua inexatidão, mesmo que tal displicência indique que S (simbólico) (eixo horizontal da figura) é simplesmente uma distribuição de lugares.

O esquema da aula 6 do modo como está colocado, tanto nesta tradução quanto na estenografia da elp, diferente deste que está aqui, peca por perder de vista a questão do enquadre, porque se Lacan simplifica, também faz questão de dizer que a angústia está enquadrada. Que nos esquecemos dos limites do espelho. E justamente o que é fresta é a possibilidade de que o sujeito veja para além da miragem que o constitui, bastando para isso ver que é uma miragem o que constitui enquanto ser. Por isso é importante para preservar certas idéias fundamentais ao aparelho que o I esteja para além dos limites do espelho, pois o próprio Outro não dispõe claramente do Ideal que pronuncia, porque I se orienta por uma falta que é sua castração. Assim, no quadro de Salvador Dali[1], em outra ocasião explorado de um modo diverso, podemos ver que as formas voluptuosas, ali colocadas para animar nosso desejo não apenas encontram um enquadre, que permite disfarçar a falta de profundidade, a falta de uma terceira dimensão (o fundo não é o que parece, é um cenário, não existe), como também, ao pendurar objetos nestas figuras, desvia a atenção para o fato de que os seres poderiam perfeitamente viver ali mortos, suspensos por cordões invisíveis, amarrados em um lugar que está alhures, ou dizendo melhor ainda, amarrados em nada, em lugar nenhum. Lugar nenhum, buraco, não em alguma falta.
É igualmente importante perceber, por exemplo, que a idéia de “especular” é colocada neste seminário não apenas como uma imagem na qual o sujeito se vê, mas principalmente como algo que é constituído fora dele, no campo do Outro. O que está aqui é correspondente ao que está lá. Os exemplos aparecem na análise de Hamlet, e as identificações especulares são com o tio assassino e com Laertes. Vejam que nem ao menos são identificações harmônicas. Em termos de “essência”, elas são imagens díspares entre si. Isso não é exatamente uma novidade na teoria, mas seu caráter quase instrumental torna-se acentuado.
Quanto à questão do falo: Na lição 4 temos: “pus na última lição e entre parênteses este signo –phi, indicando que se deve dar-lhe o perfil de uma reserva libidinal, de algo que não se projeta, que não se investe na imagem especular.” Nas estenografias da elp e na tradução de Miller temos que, nos esquemas, –phi sempre está em parênteses, tanto no campo do sujeito quanto no campo do Outro. No seminário 4 temos: o desejo da Mãe é um desejo que a criança percebe que terá que enganar, uma vez que a ele não se pode responder.
O desejo, dele temos o instrumento (seminário9), não o objeto.
Ora, quando Lacan distingue o que seja uma falta redutível de uma falta irredutível é com esta questão que ele opera. Um zero conta. Um zero inicia a contagem. Podemos por exemplo zerar uma conta e pagar uma dívida. Eis aí um zero que conta e muito. O falo é o que falta, mas não é mencionado e neste caso apaga-se o que está apagado. Não se mostra o que está faltado. O falo é uma espécie de consenso, de que há algo que poderia bastar e silenciar o desejo, opera pela via equivocada de que é possível completar o conjunto. De que na significação o sujeito se diz. Por isso é importante a questão trazida por Nina Leite, acerca do porque o Outro ser notado como barrado. É totalmente diferente dizer que é por que sempre faltará significante e dizer que a causa é o resto inexpugnável, o abjeto. É por exemplo a suposição de que em uma análise bastaria dizer tudo para chegar ao final. As demonstrações de Henry Krutzen com os nós demonstram que não é nada disso.

Vemos nestas figuras que o corte que faz um nó passar a não nó, mostração do “desfazimento” da unilateralidade, tal corte não persegue todo o circuito significante, e nem mesmo para isso há um único caminho/estilo.
Assim, as figuras que estão na lição 10 podem ser substituídas com vantagem por outras, porque elas não mostram o que seria uma falta zerável e uma falta irreparável. Redutível versus irredutível.

Mas é justamente em torno deste objeto enganoso, suposto responder pelo desejo, que se constrói uma imagem. Por isso é capital em todas estas figuras a questão da borda do vaso, idênticas aos parênteses em torno de –phi. Em seu contorno o sujeito constrói uma esfera que ele supõe fechada, onde ele se distingue e se oferece, onde ele joga com o desejo. Não se dá a ver este vazio, é necessário que o Outro não saiba, o Outro do desejo é constituído como inconsciente, ele não deve saber.
Não querer saber não dá certo para alguns seres, alguns se acomodam mal com isso e são atravessados por uma espécie de paixão chamada sintoma. Citação: “Daqueles que se apresentam à psicanálise, diz-se que estão alienados da norma. Talvez isso seja verdade, mas não se justifica a tentativa de reinseri-los nessa norma. Estão alienados porque provaram alguma coisa a mais, e uma vez que tiveram esta experiência, a norma não parece mais valer a pena”[2].
Mas ao mesmo tempo este jogo de “resposta” ao desejo é um jogo que o ser evita denunciar, porque a segurança das estruturas formadas não pode ser abandonada sem uma perda de gozo. O Eu é uma função de desconhecimento, mas se isso não se mostra é porque “é preciso subsistir na realidade e a experiência acumulada no Eu forma referenciais seguros, embora eles fracassem quando se trata dos efeitos do Inconsciente” (Observação ao Relatório)
Neste seminário temos que o significante, feito para recortar, também é feito para desdizer, para enganar. Mas quando Lacan coloca o cross-cap no espelho, como indicado na página 25 (“se nos colocamos fora do campo visual, sigam pelo tato a borda deste vaso transformado. É um vaso como qualquer outro, com uma borda, mas ele parece ter duas”) o que ele indica é que na borda simples, em determinadas condições podemos ver emergir a borda dupla. Trata-se do fenômeno do umheimliche. A questão da borda dupla ou simples já está indicada no seminário da identificação. Mas há uma operação que Lacan não retoma do mesmo seminário, em que o umheimliche se mostra topologicamente que é o cross-cap no espelho.

Por esta figura vemos que por distorções chega-se no espelho do Outro, a uma impossibilidade de deter a insistência do real, manifesta pelo recorte de uma borda. Passemos às discussões.
Carlos S Martinez
Março de 2005