O ESQUEMA ÓPTICO

 

O esquema óptico é uma invenção de Lacan que poderia ser comparada a um quadro surrealista, onde elementos absolutamente heterogêneos são encontrados em relação, mas ao mesmo tempo sua simplicidade, sua possibilidade de distribuir espacialmente os registros do Simbólico, do Imaginário e do Real, nos remete não a uma obra artística e sim a um esquematismo genialmente formulado (essa simplicidade não significa, entretanto que as elaborações sejam simples). Não é de se surpreender que anos mais tarde Lacan vá se ocupar do nó borromeano, uma vez que já o esquema óptico é uma articulação entre os três registros. Mas ele é uma imagem de referência, não um sistema. Em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache”, é apresentado como a exposição de uma insuficiência. Neste relatório sua função é mostrar as relações entre o Ideal do Eu e o Eu Ideal, ao passo que no primeiro seminário publicado, a grande função era desalojar do registro do Imaginário uma importância excessiva.

A insuficiência que Lacan acusa se refere diretamente à posição do objeto a a partir deste esquema. Por dar imagem a um jogo de imagens o esquema não pode descrever a função dada pelo simbólico a este objeto. Por dar imagem, por tecer um desenvolvimento marcado de saída justamente pelo registro imaginário que se trata de melhor dimensionar.

Quanto a isso vale lembrar Eidelsztein, que gosta de lembrar que Lacan faz constar no próprio ato de transmissão a presença do que está sendo transmitido, seu estilo preserva a dificuldade, seus textos são feitos para não serem lidos. Nesse sentido, as formas topológicas, que se sucedem ao tempo do esquema óptico, serão fecundas em guardar o paradoxo, o impossível, o incompreensível. Elas não ocluem o Real.

Nada disso impede que o esquema seja fecundo em produzir uma interessante discursividade sobre a constituição do Sujeito e suas relações imaginárias, mas ele falhará em nos dar acesso ao objeto a, coisa que não deve nos surpreender, uma vez que, como podemos verificar no seminário da angústia, tal objeto impõe grande resistência à formalização, uma vez que ao nos servirmos do significante para fazê-lo, já o perdemos de vista, já que tal objeto é justamente o que produz colapso no funcionamento significante, ao subverter relações de direito e avesso, para dizer de um modo apressado. Mesmo assim o esquema nos serve para uma imaginarização do oco onde gira a realização de um lugar para o sujeito do desejo, e neste seminário de formalização do estatuto do objeto a, que é o seminário 10, Lacan dele também se valerá.

O esquema é apresentado em três figuras, todas elas importantes. Temos algumas diferenças no seminário 1 e na “Observação” e seu aparecimento no seminário 10 se dá em múltiplas formas, em recortes diferentes. Vamos nos deter nos dois primeiros trabalhos.

A primeira das figuras é o espelho côncavo, onde vemos a formação de uma imagem real, em conjunção com um objeto real, para um observador fora do aparelho. Sua principal função é mostrar que a imagem real vem a se misturar com objetos reais. Mas não temos apenas dois, temos três elementos, e vamos indicá-los antes de dizer a que cada um deles se refere.

As flores não são, como poderia parecer à primeira vista, um mero elemento acessório ou estético. Sua função é fundamental, porque impõe um lugar onde focalizar o olhar. As flores capturam o olhar para uma determinada posição. Sem que elas estivessem ali, um observador poderia não ser atraído para algo que se mostraria, por falta de foco, como uma massa disforme, uma sombra no espaço. É como nas figuras 3D, computadorizadas, em que é necessário dirigir o olhar através da figura e focalizá-lo no horizonte para que se produzam imagens igualmente reais. Sem focar o horizonte a imagem não se produz. As flores são os instintos, os objetos, os desejos que passeiam, e indicam a função norteadora da relação de objeto. A diversidade dos caules pode representar a multiplicidade de objetos possíveis, a parcialidade destes objetos, a anarquia das pulsões, onde qualquer objeto tem a potência de dar espaço para acomodar o contorno da imagem real.

Lacan descreve a primeira imagem como uma composição inocente onde figuram o vaso e as flores e nos lembra que todas as concepções analíticas do estado primitivo de formação do Eu colocam em primeiro plano as noções de conteúdo e contingente. O que está incluído dentro difere do que estará posto para fora por exclusão e projeção. Elas são fundamentais para a constituição do próprio campo da realidade e do corpo. Esta primeira composição se faz de uma imagem real e de um objeto real que se confundem, mas sua mistura não nos autoriza a pensá-los do mesmo modo. As propriedades destes dois elementos reais são diferentes. Mas há um passo a ser dado a partir deste primeiro esquema, pois a posição em que figura o sujeito não corresponde ao que se passa com o humano, cujo acesso ao corpo não será dado de modo direto. O sujeito que vê, nesta figura, não estaria mergulhado na estrutura, estaria fora, com acesso direto à ilusão, sem qualquer necessidade de mediação e isso praticamente não existe. Digo praticamente porque Lacan considera que a imagem i(a) tem uma anterioridade, ela é subjetivada já no início por “vias de auto-condução”, no reflexo do espelho côncavo, “no começo do nosso modelo”, por alguma função global do córtex, onde os orifícios corporais costuram o corpo, cuja realidade tem-se pouco acesso, como uma superfície que o sujeito imagina poder ser revirada como uma luva.

Podemos já destacar três elementos claramente situados. Um elemento imaginário que inclui o real e lhe dá um contorno, um objeto real que situa o imaginário e um lugar onde a ilusão se produz. O sujeito aqui está indicado como um lugar, porque esta montagem não existe fora do cone de visão. Num exemplo que Lacan nos dá da subjetividade ele nos diz: o arco-íris é subjetivo. O exemplo é muito bom para perturbar uma identificação do sujeito ao ser, porque o arco-íris pode ser visto por uma multidão e ser subjetivo porque ninguém que não esteja entre o sol e a chuva poderá vê-lo no mesmo momento e lugar em que ele se produz para um conjunto de pessoas.

Um observador por sua vez situado dentro do aparelho, na borda do espelho esférico, identificado ao córtex cerebral, está fora de alcance para distinguir a imagem real, razão pela qual ela não está representada no segundo esquema.

A figura seguinte aproxima o Sujeito desta imagem que lhe pertence, pelo artifício do qual o sujeito humano de fato se vale, uma vez que ele só percebe o conjunto da situação na imagem do semelhante, duplo de sua própria imagem. É importante notar que a percepção do corpo não se dá por uma curiosidade intelectual. Sua mediação se dá pelo desejo. É pelo desejo do desejo reconhecido no corpo do outro, do qual o sujeito aproveita a forma, que a unidade é antecipada, embora o desejo seja em si mesmo um desejo despedaçado, não constituído. Um parêntese: É preciso perceber que este esquema se refere ao modo como o homem pode apreender seu corpo e esta apreensão se submete aos problemas da constituição da libido, pois no homem a libido está colocada antes que um objeto tenha sido encontrado. O Sujeito que se depreende deste esquema é, portanto um sujeito que não é menos desejante por encontrar lugar numa discursidade que parece esquemática.

O homem se concebe como outro. Há uma referência interessante de Lacan ao que Marx diz no capítulo I, sobre a mercadoria, em nota de rodapé, com relação a isso. A citação é assim: De certa forma sucede ao homem como a mercadoria. Pois ele não vem ao mundo nem com um espelho, nem como um filósofo fichtiano que diz eu sou eu. O homem se espelha em outro homem. Só por meio da relação com o homem Paulo, como seu semelhante, reconhece-se o homem Pedro a si mesmo como homem. Com isso vale para ele também o Paulo, com pele e cabelos, em sua corporeidade paulínica, como forma de manifestação do gênero humano.

No esquema isso se faz pelo uso de um espelho plano, o espelho A, que embora mantenha a cegueira do sujeito quanto a si mesmo, dá condições de acesso à imagem. Talvez seja mais exato dizer que esse acesso à imagem do outro, que antecipa a própria imagem e estabelece uma situação de transitivismo, não se dá sem que a espelho do Outro, sem que a passagem ao simbólico intervenha. Ele nunca estará fora deste jogo, pois é o campo onde se dá legitimidade ao desejo, onde o Sujeito forja seu lugar numa reserva de atributos que lhe é anterior, no universo significante onde ele foi esperado, na dependência ignorada pelo sujeito de redes simbólicas que o ultrapassam. E a imagem só ganha seu verdadeiro valor quando o olhar já foi desviado em busca de um reconhecimento, lugar onde se constata seu poder de afetar de algum modo o desejo do Outro, num momento em que ela já se dissipou. No esquema o Sujeito deverá vir a posicionar-se no lugar onde sua correspondente imagem, que ele não vê, estará situada num determinado cone x’y’ no campo virtual do Outro, em S, ao lado de um I.

O real do corpo próprio está aquém do espelho e além está o imaginário primitivo da dialética especular e as insígnias que vão se amontoando em I.

A imagem do vaso i(a) figura aqui portanto como imagem de corpo, cujo acesso direto é impossível, sustentada no registro imaginário, antecipada no estádio do espelho, e que confere um domínio, por conferir uma unidade, antes do domínio real do corpo, cuja substância é percebida caoticamente nas pulsões, nos desejos, figurado no esquema pelas flores reais. Quando o domínio real se tornar possível, ele estará marcado por essa antecipação, e dela vai retirar seu estilo. Mas o falso domínio daí resultante não resume toda a situação porque essa imagem também já é uma forma do outro, instaurando uma situação intrínseca de alienação, mesmo havendo um declínio do estádio do espelho. Esta forma do outro, tomada como superfície que dará forma ao próprio corpo poderá ser assumida pelo sujeito. Quanto a isso é interessante notar que o homem se sabe como corpo, embora não haja razões naturais para que seja assim, e nesse ponto pode haver diferenças com relação a outros animais, pois nada garante que se saibam um corpo. Mas o transitivismo produz uma alienação que pode ser renovada. Veja-se a passagem do caso Dora em que Freud desconfia de que a crítica insistente que ela faz ao pai se refere na verdade a uma crítica contra si mesma. “Um rosário de censuras a outras pessoas leva-nos a suspeitar da existência de um rosário de autocensuras de conteúdo idêntico. As censuras de Dora a seu pai estavam assim “forradas” ou “revestidas” de autocensura de conteúdo idêntico, quase sem exceção”.

Esta imagem, concebida como outro que não ele mesmo, dá uma primeira forma ao sujeito que lhe permite situar o que é e o que não é do Eu, mas ao mesmo tempo esta referência a uma imagem, se confunde no homem com a imagem da morte. Num limite, ele está na presença do mestre absoluto, na medida em que está submetido a esta imagem. O outro é infinitamente mais mortal para o homem que para qualquer outro animal. Há uma passagem engraçada, pela unanimidade, inesperada em Lacan, onde ele diz “estamos todos de acordo em que o amor é uma forma de suicídio”.

Esta montagem suporta a representação de um sujeito logicamente anterior ao nascimento do Eu. O sujeito não é a massa dos instintos, das tendências, dos objetos, ele não se confunde com isso. Ele é sua posição. Na relação do imaginário e do real e na constituição do mundo que resulta disso, tudo depende de que haja sujeito situado no/pelo mundo da palavra.

O caso Dick, discutido por Melanie Klein é bastante esclarecedor desta articulação. O pequeno Dick não faz nenhum apelo e não sofre qualquer espécie de ansiedade, ele se relaciona com um real sem bordas, onde nada se distingue, nada se recorta. Sua pobreza imaginária é correlata da pobreza dos objetos. O pequeno Dick não mostra ansiedade porque não cerca para fora objetos, não executa ejeções, que teriam por resultado produzir a cada vez uma identificação, que neste mundo primitivo, escasso nas palavras, é ansiogênica por não poder ser comunicada. O que Melanie Klein faz é puxá-lo para dentro do cone, onde ele é colocado como sujeito desejante: Dick pequeno trem, grande trem papai-trem. Station, diz a criança, e recebe: A estação é mamãe. Dick entrar na mamãe. Ela lhe diz onde ele pode estar. A partir daí começam diversas simbolizações da realidade, a possibilidade do apelo e a diversificação dos objetos.

O exemplo nos permite dizer que o espelho é um espelho A, que seu manejo é feito no campo do grande Outro. De lá ele é colocado em um lugar que lhe oferece uma imagem que a ele oferece uma casa, no sentido do jogo. O caso mostra que este lugar do sujeito próximo às flores depende deste lugar que Lacan no seminário 1 chama de lugar virtual do sujeito no campo do Outro, e que aparece grafado S nas “Observações”, ao lado de I. O que é oferecido não é exatamente um lugar para este Sujeito, um $ virtual, ou seja, embora a palavra possa exprimir o ser do sujeito, ela na verdade não chega nunca a isso. Diante da proximidade deste momento de emergência da palavra que o diria, a boa palavra, o que se vê na clínica é que o Sujeito quando está nas imediações de realizar esta palavra, realiza ao invés disso a presença do analista, nos fenômenos da transferência...

O Sujeito é pensado como um Sujeito em que Isso pode falar, mas disso ele a princípio nada sabe a respeito, é o que é mais seguro de acontecer (e é preciso que o Outro também não deva saber, e que fique seduzido pelas diversas cores da transferência).

Para Lacan é o sujeito que se desenvolve, não o ego. O sujeito se desenvolve por sua integração ao sistema simbólico, que exercita pela palavra verdadeira, que pode vir de qualquer lugar. O que está sendo chamado de palavra verdadeira aqui é uma palavra que introduz o mito, onde teremos relações entre sujeitos, sendo o Édipo uma versão abreviada do mito. O lugar do olho é um bom lugar, onde se pode produzir uma série de encontros quando da entrada do sujeito na linguagem, onde o grito, o vagido, a voz da criança transformada em apelo torna a recusa e a dependência uma possibilidade. E o ego depende dessa posição para que apareça. Se isso não ocorre o sujeito fica com uma realidade reduzida, com uma bagagem imaginária reduzida.

Onde o Sujeito encontra este lugar para poder cavar seu espaço vazio? Podemos perguntar a troco de que o sujeito se abre ao investimento libidinal, uma vez que o estado de satisfação narcísica lhe seria possível. A intervenção do grande Outro é um ato de corte, e é o único meio pelo qual a relação narcísica pode se abrir a alguma dialética, a alguma fecundidade. Mas o narcisismo assim abalado recoloca, através das formações do eu ideal e do Ideal do eu, certas exigências relativas à preservação do narcisismo. A entrada do Ideal do eu é a mola por onde dá a complexificação do sujeito e serve para restituir os benefícios do amor.

Nos desenvolvimentos que Lacan faz sobre o narcisismo ele distingue dois planos, os dois narcisismos. O primeiro deles é o de um narcisismo que se relaciona a uma imagem corporal e que dá sua forma humana. Está situado na imagem real do esquema e permite organizar o conjunto da realidade num certo número de quadros pré-formados. A reflexão no espelho manifesta uma possibilidade de apreensão do mundo que é original e introduz um segundo narcisismo. Seu padrão fundamental é imediatamente a relação ao outro, cativante e como já dito, antecipador de um domínio inexistente quanto à própria unidade. Esta imagem vai segundo etapas se confundindo com o Ideal do Eu. O sujeito vê seu ser numa reflexão em relação ao outro, em relação ao Ideal do Eu. Esta formação está no plano do simbólico, diferente do eu ideal que está no plano do imaginário, porque o Ideal do Eu é uma referência que está no conjunto das exigências da lei. No seminário 8 Lacan nos diz que o ideal do eu pode ser claramente distinto do eu ideal. O Ideal do Eu advém de uma introjeção do Outro, é simbólica, está relacionado com a identificação ao pai e se dá por um único traço. É um signo. É o olhar do Outro interiorizado por um signo. O grande I é um signo do assentimento do Outro, da escolha de amor sobre a qual o sujeito pode operar. O eu ideal é a fonte de uma projeção imaginária, que vem trazer a satisfação narcísica, não sem depender da referência a este termo simbólico primordial, que exerce o seu poder de reconhecer um desejo. O Ideal do Eu é uma constelação de insígnias, marcas de respostas que tiveram o poder de fazer de um grito um apelo. O sujeito se comprazerá em encontrá-las e é o que ele fará, para produzir uma determinada miragem do eu ideal. Mas não se trata exatamente de um jogo onde se produz um estado de paz ou de acordo, porque embora a luta, a demanda seja por amor, a este eu ideal amável se sucederá um eu autêntico, que virá através da evolução e será, apesar de tudo, amado, apesar de não ser a perfeição. Toda a seqüência de seu desenvolvimento se dará contra o vento, no risco e no desafio. O sujeito busca o lugar que está vazio, procura-se enquanto desejante. Fala para nada. Mas este desenvolvimento tem como seu eixo de cristalização esta imagem, que existe para a garantia de uma consistência onde se confirma o que já era esperado. Esta imagem, embora seja uma imagem de captura, é sob sua orientação que o sujeito em análise, ao assumir como seu, e não mais como pura exterioridade, o discurso inconsciente, se aproxima do campo do Ideal do Eu, em que ele faz seus duplos. São obstáculos que Freud constata, são graus de alienação e que não estão aí para serem consagrados, uma vez que estão no caminho entre o sujeito e seu desejo.

No esquema isso corresponde ao giro do espelho em 90o. Neste trajeto a imagem sofre abalos que os efeitos de despersonalização vividos ao longo da análise indicam. O manejo do espelho é capaz de mudar a imagem sem que o lugar do sujeito precise ser modificado. Este manejo do espelho pelo analista, que afeta a harmonia desta montagem, retira de cena rapidamente elementos distantes que trazem coloridos às vezes intensos para a imagem especular, já que a inclinação do espelho retira de cena os objetos que estão distantes mais rapidamente do que objetos que estão mais próximos. Isso mostra que brutais modificações verificadas no início de algumas análises indicam que o que parecia um sintoma era a sombra fugaz de alguma identificação distante. Para entender isso no esquema é necessário considerar que o espelho em questão é um espelho sem aço e que imagens além do espelho passeiam pelo campo onde a própria imagem se forma. Tal elemento vale a pena acentuar, porque ao dizermos espelho, podemos supor que ele não deixa ver nada da realidade, mas é mais conforme a lógica do modelo que o pensemos como uma superfície vítrea, que reflete como o vidro de uma janela. É interessante notar que sem que a imagem real mexa, pela oscilação do espelho a imagem que o sujeito verá, advinda do espelho esférico, poderá passar da forma de uma boca à forma de um falo, de um desejo mais ou menos completo a um desejo despedaçado. No estado de vigília o corpo do outro é constantemente reenviado ao Sujeito, tornando mais pesado um efeito de desconhecimento. No sonho, a retirada do corpo do outro, a opacificação do outro lado do espelho permite que o sujeito perceba melhor seu corpo. “Eles têm olhos para não ver” é uma afirmação, não uma ironia.

Neste ponto podemos rever o apólogo do louva-deus que é apresentado no seminário da identificação. Podemos dizer que neste caso o espelho côncavo equivale à máscara colocada sobre o rosto. Aqui ela fará as vezes do córtex. Ela cria uma imagem indeterminada para o sujeito diante dos olhos opacos da louva-deus, que não deixa ver nada do que se passa no espaço virtual. Passamos de uma superfície refletora para uma superfície de pedra do lado do sujeito, e não temos nenhum acesso quanto ao que se passa no espaço virtual, onde sabemos que um desejo passeia, o desejo do Outro.

Sobre este lado virtual do esquema, Lacan afirma que é ali o lugar onde o analista se encontra e que entender isso é entender quase tudo o que se passa em uma análise. Penso que podemos pensar a partir disso a idéia de que o analista faz semblante de a. Embora Lacan tenha dito que o esquema não torna clara a posição do objeto a, penso que isso é em parte superado com a intervenção da figura do cross-cap, com possibilidades de uso deste esquema que não estão dadas antes do seminário 10. Neste seminário não importam mais as flores, ou melhor, importa, ganha destaque, a questão das bordas do vaso. (E como sempre apareça a função i(a), podemos supor que o seminário usa o esquema sempre em referência a situação do sujeito em análise, sob o manejo angustiante do espelho pelo analista.)

Este furo privilegiado é o contorno que o recorte de a põe à mostra. É o furo escamoteado em toda a montagem implicada no esquema. Não podemos esquecer que Lacan defende que estas estruturas servem para escamotear, para obscurecer um vazio, vazio onde o sujeito toma justamente sua marca maior, vazio que se mostra no estranho, vazio cuja resposta tenta ser dada com o falo, este objeto de um jogo cativante de sedução que faz uma promessa falaciosa de ser a Resposta ao desejo. Estas estruturas são estruturas que protegem do enfrentamento da inconsistência do Sujeito. O analista não coloca suas demandas, se as colocasse faria projetar a partir de índices, no lado de lá do espelho, imagens às quais o analisando se orientaria. Aqui eu acho que fica um pouco mais claro o que é a relação entre o Ideal do Eu e as formas de eu ideal, que são imagens onde o sujeito se propõe como objeto.

A terceira imagem do esquema representa portanto a ação analítica, onde o espelho deitado na terra arrasta a posição do sujeito para as proximidades destes índices do Ideal do Eu, este lugar onde me vejo passível de ser amado, suporte do amor enquanto narcísico, regulador de toda a nitidez das imagens nesta montagem. Quanto a isso é importante pensar o que é a presença do analista, pois ela vem abolir o uso da função do Ideal do eu na reprodução dos eus ideais. Eus ideais, plural, esta sucessão de imagens que efetuaram o domínio da imagem, a partir do estádio do espelho, estas imagens acolhidas por oferecerem foco, esta coleção que constituiu o núcleo do ego. Esta presença se dá de modos diversos. A elaboração de Balint parece ir no sentido de que o analista deve encarnar índices mais benignos do Ideal do Eu, daí esta situação descrita como emocionante no término da análise. No esquema o sujeito $2, ou seja, uma outra posição para o sujeito antes visto na posição 1, colocado ao lado de I vai se deparar diretamente com a ilusão do vaso invertido. “O modelo demonstra que quando o olho $ atinge a posição I, de onde ele percebe diretamente a ilusão do vaso invertido, nem por isso ele não vê refazer-se no espelho A, agora horizontal, uma imagem virtual i’(a) do mesmo vaso, invertendo novamente, por assim dizer, a imagem real, e se opondo a ela, assim como à árvore seu reflexo numa água, morta ou viva, dá raízes de sonho”. Penso que há uma diferença de posição radical entre Balint e Lacan, pois para Balint parece bastar demonstrar a potência do imaginário em enganar com alguma competência o desejo do Outro, daí identificar o sentimento maníaco que se apodera do paciente diante de sua imagem (diante da qual o Outro desmaiaria) com o alvo da análise e a emoção até as lagrimas em que descamba o par analítico. Tal situação me lembra uma fala em que alguém dizia que perde o amigo, mas não perde a piada. Parece-me que para Balint o que vale é fazer o amigo. Lacan diz no seminário 8 que o analista não teria como levar ao termo uma análise sem desalojar o sujeito da posição que assume, confortável, na medida em que dá ao analista a posição de Ideal do eu.

Claude Conte no artigo “Sobre o narcisismo e a clivagem do sujeito” fala que é necessário um lugar vazio para a constituição do sujeito da privação (um lugar onde se pode retomar isso está no uso do quadrante de Peirce no seminário da Identificação). A preservação deste lugar vazio é essencial e caso tenha sido preservado, isto é, nas melhores hipóteses, conduz à possibilidade de o Sujeito que interroga o Outro sobre o seu desejo possa se deparar enfim com a impossibilidade de que o Outro responda por isso, sobre isso. Penso que isso seria contar com o I em uma condição em que ele é apenas traço, marca, índice esvaziado de toda conotação de gozo, onde a imagem real aparece como insuficiência para representar a Coisa da qual o Sujeito está mais próximo.

Lacan diz que esta situação é uma situação de estranheza que se produz no encontro do Sujeito com a imagem narcísica em condições que revelam que ela lhe usurpa o lugar. No lugar preparado para o Sujeito o Eu veio se alojar, é isso o que se revela. A resistência ao fato de que o Eu seja uma função de desconhecimento está no fato de que é preciso subsistir na realidade e a experiência acumulada no Eu forma referenciais seguros, embora eles fracassem quando se trata dos efeitos do Inconsciente. O analista produz a desinserção da relação ao outro, faz variar, oscilar e descompletar a imagem do Eu. Isto permite perceber as etapas do desejo, os objetos que deram à imagem sua consistência. Por retomadas sucessivas o Sujeito revê as identificações que constituem a história de seu Eu, a sucessão das identificações com objetos amados que lhe permitiram tomar uma forma. Este processo tende a recriar artificialmente a miragem, condição fundamental de toda Verlibtheit, o amor que surge também na transferência imaginária. A grande diferença é que no tempo de construção deste amontoado de imagens constitutivas a possibilidade de fala é absolutamente precária. No tempo da análise o apoio ao desejo não se dá mais pela imagem e o amor de transferência não instaura uma relação e sim uma clínica. Dar a palavra no momento da conjunção de um desejo que surge com uma imagem é função do analista, assim como é o lugar em que o sintoma aparece quando esta palavra não vem, porque o desejo impõe alguma forma de convocação do simbólico, seja pela palavra, seja pelo sintoma. O analista ocupa sem paixão este lugar de I, sem paixão por saber que estas instâncias são feitas para proteger do horror da verdade que é o tão pouco de ser que constitui o Sujeito. Mesmo sendo através delas que se chega ao nada constitutivo do Sujeito, não há nada que justifique um projeto de reforçá-las. E esta falta de paixão, se existe, também implicará em um desinteresse em selvagemente detoná-las.

 

 

Carlos Serafim Martinez

Campinas, 13 de março de 2004.